Close

9 de setembro de 2014

Quando eu voltar a ser nada

Hoje pela manhã cortei fora minha orelha esquerda e a joguei no lixo. Saí para trabalhar. Na rua encontrei um conhecido, que estranhou o curativo e perguntou o que houve. Disse-lhe que tinha batido a cabeça no armário da cozinha. Pedi um café no bar, e o atendente me olhou com pena e quis saber onde eu arrebentara a cabeça. Respondi que fui esquiar no fim de semana e bati de frente numa árvore. Quando cheguei ao escritório, todos me olharam com espanto e logo se acercaram de mim, perguntando se eu precisava de algo, o que tinha acontecido etc. Disse a eles que fui diagnosticado com um tumor maligno no lado esquerdo da cabeça e que em poucos meses iria morrer. A secretária do andar não disfarçou uma lágrima quando me deu um beijinho na bochecha. Todos estavam solidários com minha desgraça e me trataram com muita consideração. Achei bom ser o centro das atenções e o principal assunto das conversas. Sei que isso vai durar uns dias e depois tudo voltará ao normal – e eu voltarei a ser o mais absoluto e insignificante nada.

Na semana que vem cortarei minha orelha direita.

 




Tags:,

9 de setembro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos nada, orelha

              
            
  1. É triste quando você se sente invisível. Parece que as tragédias nos coloca no centro das atenções, muitas vezes, por gentileza, ou por pena e não por solidariedade! Cuidado para não se transformar em pedaços de ser humano…

    Estou reunindo os meus pedaços, tentando estar de volta.

    Leman

    • Liman, conhece o ditado que diz “não há noite escura que não traga o dia”? Pois é, pense que sempre haverá um dia nascendo ensolarado depois de uma noite de tormenta. Desejo força a você. Bola pra frente, há vida adiante. Grande abraço.

  2.     
                        
              
            
                

Deixe um comentário