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13 de agosto de 2018

Quando o nosso nome estiver gravado na pedra

Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério, nem eles sabem explicar. Não está com o rosto definido ainda, diziam. Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos. E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto, Beto para os amigos. Esse nome durou até a noite de núpcias, quando, no momento crucial, minha mulher me chamou de César. Céeeesar!, gritou ela, antes de largar o corpo na cama, suado e satisfeito. Ela casou com o Beto e tirou a virgindade do César, meus amigos faziam sempre a mesma piada.

Desde então mudei de nome em outras três ocasiões: no escritório em que fui trabalhar eu me sentia Oswaldo, e assim me apresentava a todos; na faculdade, Péricles; na mesa de jogo, antes de bater o punho e gritar Truco!, Evanildo.

Meus amigos se confundiam. Para facilitar a vida deles, aceitei que me colocassem no pescoço uma tabuleta com o nome vigente e, mesmo assim, eles ficavam pouco à vontade quando tinham que me chamar. Diziam que tinham recebido um nome quando nasceram e iam continuar com ele até o fim. Eu respondia que eles tiveram sorte, que o rosto se moldou ao nome que ganharam e não havia necessidade de mudar. Não era o meu caso, meu rosto não era sempre o mesmo e por isso o meu nome tinha que se adequar. Para tranquilizá-los, eu respondia que, algum dia, seríamos todos iguais, teríamos o mesmo rosto e o mesmo nome gravado na pedra.

 




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13 de agosto de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos batismo, nome, pedra

               
              
            
                

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