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18 de fevereiro de 2019

Quando um amigo me visita

Eles são seres humanos cujo olhar limpa o meu. Amigos, é assim que os chamo. Caracterizam-se por exalar cheiro de afeto, um afeto que lhes confere nitidez especial, que os precede e os segue. Dessa nitidez brotam o contorno de seus ombros, seu nome, suas palavras e gestos, sua presença, mesmo quando já não estão. São o contrário da pedra dura. São o revés do espinho. São o oposto do metal cortante. Gosto de pensar neles como esponjas com formato humano, onde se é acolhido e ternamente cuidado.

Eis que um deles chega à minha casa. Abarco sua massa corporal entre meus braços e fico feliz de me sentir um dos seus. Peito com peito, calor compartilhado, olhar terno indo e vindo — ocasião em que meus fantasmas interiores, e as nuvens negras que eles carregam, se dissipam. De pronto percebo um amanhecer em minhas noites diurnas, enquanto dissolvo prazerosamente na alegria meus pequenos dissabores. Desfruto da companhia que o céu me concedeu, e o tempo, espectador atento, a tudo assiste e diante de tudo se cala.

Assim que começamos a conversar, a linguagem ganha corpo e sentido em torno de nós. Repartimos, como pão, a luz do dia em dois. Eu o convido a um pássaro, ele retribui com o balançar de um ramo seguro de árvore, perfeito para um ninho. Pergunto-lhe sobre o mar, que há tempos não vejo, e sobre o sol nele refletido, ele me pede que fale das montanhas e do verde que todos os dias enche meus olhos. A distância nos aproxima, a saudade nos irmana, o desterro nos reconhece.

A tarde escorre com lembranças e cheiro de comida. Depois que nos despedimos, acompanho com o olhar sua figura se afastando. Comprovo nesse instante que metade de mim vai com ele, que metade dele permanece comigo.

 




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18 de fevereiro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Prosa Poética amigo, amigos, visita

               
              
            
                

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