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19 de junho de 2020

Quarentena em 5 vezes

MATRIMÔNIO

Vinte anos juntos, e já era tempo demasiado, considerando os últimos cinco, em que a falta de respeito e as agressões verbais azedaram de vez a relação. Ameaças de separação eram o assunto de todo dia naquele matrimônio. Menos mal que nunca tivessem chegado à violência física, mas agora, depois de vinte anos, os dois estavam exaustos de tanta infelicidade. Quem iria cair fora primeiro? Nenhum deles queria carregar a culpa de ter tomado a iniciativa de abandonar o lar, ainda mais com dois filhos pequenos. Ninguém estranhou quando eles anunciaram, com grande alegria e entusiasmo, que o terceiro rebento estava a caminho. Uma menina!

 

MALABARISTA

Ela prepara o café da manhã e veste os meninos para levá-los ao colégio. Na volta, faz compra no supermercado, limpa a casa, prepara o almoço, cuida da mãe inválida, lava a roupa e passa a ferro o uniforme de seu marido. Lustra os aros de metal que ele usará no espetáculo da noite. Nos cartazes do circo, é a foto dele que aparece como malabarista.

 

O ASSALTO

Ele estava desesperado e não viu outra maneira de resolver o assunto. Colocou uma peruca loira e óculos de sol que lhe tapavam metade do rosto. No bolso do casaco, um revólver de plástico. Entrou na agência bancária com ímpeto e anunciou o que queria. Menos de um minuto depois as sirenes da polícia já gritavam à porta. Foram horas de negociação com o gerente, mas no fim tudo se acalmou. Um a um os reféns foram liberados. Depois de muito conversar, ele concordou com a solução proposta pelos policiais e conseguiu o empréstimo a juros de oito por cento ao mês. Saiu de lá com uma mão para cima e uma geladeira, um micro-ondas e um faqueiro de aço inoxidável na outra.

 

MENINOS

Onze meninos corriam descalços pelo terreno baldio da favela, brincando. Vistos do helicóptero pelos policiais armados com metralhadoras, pareciam traficantes fugindo.

 

A HORA CERTA

Madrugada.
— Ai, estou morrendo! Chama a Luísa.
— Isso lá é hora de chamar alguém? Morra pela manhã — disse a mulher, e virou-se para o outro lado.

Amanheceu.
— Alô, Luísa?
— Sim, mamãe, sou eu. Bom dia.
— Luísa, filha… seu pai… ele… seja forte, filha.

 




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