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13 de janeiro de 2020

Quarteto

1.

Talvez amanhã exploda um ônibus

ou não haja o que comer

ou essa dor que nos rebenta a alma

se faça insuportável.

 

Mas hoje, senhoras e cavalheiros,

burlamos o inimigo

e devemos comemorar

um dia a mais de resistência.

É uma vitória.

Descansem, pois.

Escondam muito bem os monstros

na gaveta ou atrás da porta,

porque a noite está ganha.

 

Terminada a arenga,

Napoleão voltou tranquilamente ao seu lugar.

O zelador distribuiu, uma noite mais,

a medicação para a audiência.

 

2.

Por favor,

quero um poema em que apareça uma porta e uma janela.

Que tenha um horizonte,

um pouco de céu

e onde se respire sem tanta dificuldade em algum verso.

Um poema com saída.

Por favor.

 

3.

Recordo uma resposta que me deu um louco

quando lhe perguntei por que falava sozinho:

“A obrigação do silêncio é me escutar.”

 

4.

Um dos membros

da matilha de tristes cães

me fez uma oferta:

disse que posso ser o astro do bando

porque ninguém late mais dolorido do que eu,

ninguém chora como eu

a tristeza mais cachorra,

que meus uivos noturnos

grudam nos ouvidos

e ficam, ficam, ficam

latejando na alma de quem os ouve.

 

Disse também

que me dará a maior parte da ração

se eu, como o astro que serei,

puder garantir afagos para todos.

 




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