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17 de outubro de 2014

A que falava demais

mulher-falando

Era uma mulher que falava muito. Falava, falava, falava. Fazia faxina na casa de dona Odete. Mal chegava, magrela feito um pau de virar tripa, já vinha falando, falando, falando, e não havia meio de fazê-la se calar. Dona Odete acompanhava a faxina, fiscalizava se tudo estava sendo feito direito, como ela gostava. E ouvia, ouvia, ouvia, pobre dona Odete! Se por acaso estivesse limpando a cozinha, e dona Odete tivesse que ir para a sala, a magrela arrastava os chinelos até lá e falava, falava, falava. De tudo e todos, do céu e da terra, do quinto dos infernos, do vizinho, da vizinha, da mãe da cunhada, do primo da sogra de uma amiga sua. Falava, falava, falava.

O que dona Odete poderia fazer? A magrela, apesar de tudo, trabalhava bem. Limpava tudo com esmero, não fugia da sujeira, pelo contrário, ia buscá-la atrás dos móveis, da geladeira, da televisão. E fazia tudo isso falando pelos cotovelos. Ia despedi-la? A magrela seria bem capaz de lançar uma praga sobre dona Odete, melhor não!

Ontem, quando lavava as mãos e a magrela limpava o banheiro e falava, falava, falava, dona Odete meteu a toalha em sua boca, para que se calasse de uma vez por todas. A magrela não morreu disso, mas de não falar: as palavras não ditas arrebentaram-na por dentro.




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17 de outubro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos falar, falava

               
              
            
                

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