Close

30 de outubro de 2017

Queixas

Não passa um só dia sem um ai, sem um dói tanto, sem um tô com falta de ar, sem um o almoço tá pronto? Nem um só dia sem uma dezena de pílulas na palma da mão, divididas em turnos de manhã, tarde e noite. Um só dia sem que olhe assustada e confusa para esses comprimidos coloridos de azul, vermelho, amarelo, em que não pense ou deseje ou sonhe com os dias moços nos quais as cores estavam nos balões que segurava na mão, amarrados por um barbante. Eram os dias — disso ela se lembra — em que se oferecia árvore para o ninho das promessas.

E agora ela olha para as próprias mãos, trêmulas, enrugadas, cheias de manchas, que não reconhece como suas, e volta a se queixar, volta ao ai, ao dói tanto, e olha o relógio grudado na parede, e grita a cada segundo em que o tempo lhe morde a pele e lhe rouba a vida, o gozo, o riso e a memória.

 




Tags:,

30 de outubro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos mãos, queixas

               
              
            
                

Deixe um comentário