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13 de agosto de 2019

Quem, quando eu gritar, me ouvirá dentre os anjos?

Costumava ler os jornais que os garçons jogavam fora assim que o restaurante fechava as portas. Não lhe importava que as notícias fossem velhas. Ao fim e ao cabo, as notícias de hoje não passavam de cópia das do dia anterior, fatos de vidas já contadas. Ele lia tudo sem muito interesse, com a preguiça noturna de quem nada espera. Ou espera: uma marquise quente, embaixo da qual pudesse esticar o corpo, uns pedaços de papelão grosso para servir de colchão e umas folhas de jornal para se proteger do frio. Também estava já com a barriga cheia, tinha comido as sobras que um dos garçons lhe dera — Reginaldo, o de sempre, bom rapaz, não o mandava embora, só pedia que não fizesse bagunça. Ele não fazia.

Quem, quando eu gritar, me ouvirá dentre os anjos?, costumava recitar essa frase antes de dormir, ouvida há dias da boca de uma moça que saía do restaurante com o namorado. Rilke, disse o namorado. Rilke, a namorada concordou. Hoje Itabira é só um retrato na parede, mas como dói!, foi a vez do namorado. Essa é fácil, disse a namorada. Drummond. E os dois saíram rindo pela rua. Um jogo de adivinhação, dissera para si o mendigo, arrumando a cama e a coberta bem debaixo da marquise, onde a garoa não chegava. Reservava sempre o cantinho do Sossego. Sossego era seu cachorro. Naquela noite falou baixinho: Pensa que eu também não sei?Poesia pichada é uma flor tatuada no muro”, de quem é? É minha, mas ninguém sabe. Tanto faz. Pegava no sono bem rápido. Sempre sonhava.

Isso foi há tempos. Acontece que naquela noite, lendo a seção de obituários no jornal, deu de cara com a notícia de sua própria morte, mas ele não sabia. A marquise de um restaurante tinha se desprendido e caído diretamente sobre um morador de rua que dormia debaixo dela, transformando-o numa pasta de carne e vísceras. Pela primeira vez a leitura lhe pareceu interessante. Quem, quando eu gritar, me ouvirá dentre os anjos?, recitou ele, enquanto se cobria com os jornais e puxava o Sossego para perto. Vai esfriar mais hoje, Sosseguinho, brrr!, e se encolheu sobre o papelão. Cobriu-se e pegou no sono. Devia estar sonhando quando a marquise veio abaixo. Gritaria, tivesse tempo. Não teve. Ninguém, dentre os anjos, ouviu.

 




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13 de agosto de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos anjos, marquise, Rilke

              
            
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