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18 de junho de 2018

Realidade paralela

Mara Luna está vomitando de novo. Ontem à noite ela perdeu a noção e a medida, ficou nervosa e bebeu demais. Não a conheço há muito tempo, mas já a considero parte indivisível da minha vida. Ela estava morando na enorme banheira deste apartamento quando o aluguei. Me assustei no começo, me acostumei poucos dias depois. Eu mesmo a batizei assim, gosto desse nome, do som e do que ele representa. Mara Luna é uma sereia.

Ela tem o hábito de grunhir e mexer freneticamente o rabo quando está contrariada; calma, geme como qualquer um de nós; bêbada, vomita. Como agora. Além de vomitar, ela também grunhe porque está presa. Eu a prendi na banheira para que se esquecesse dessa ideia de ir embora.

Quando se comporta bem, eu lhe ofereço um farto jantar, com sobremesa. Mara Luna também gosta de vinho e escutar boleros. Come muito, come demais. Ontem lhe pedi em casamento e ela surtou. Gritou que não, que as sereias não existem, como eu poderia pensar em me casar com uma coisa que não existe? Disse que ia embora, que estava cheia desta casa, que tinha saudade do mar. E bebeu mais vinho. Amanheceu vomitando. Tive que prender seus braços na banheira.

Pode ser que as sereias não existam mesmo. Pode ser que Mara Luna seja resultado de um desejo íntimo. Ou então que eu viva numa realidade paralela. Pode ser. Eu não sei. O fato é que estou furioso com sua reação. Por isso, mesmo grunhindo e vomitando tanto, eu faço de conta que não a vejo ali na banheira, nem vejo sua cabeleira ruiva, tampouco os seios mais belos dos quarenta e cinco mares deste mundo. Eu juro que não vejo nada. Mas sigo disposto a me casar com ela.

 




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