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6 de julho de 2016

Reescrever

reescrever2Retiro o livro do alto da estante. É um volume único, extraordinário e raro. Sinto seu cheiro, tateio sua capa com detalhes em relevo, avalio seu peso com as duas mãos. A mente humana é capaz de muitas maravilhas, como esta, concluo.

Abro-o ao acaso. Página 59. Percorro com a ponta do dedo palavras, frases, datas, números. Por um descuido meu, as páginas 67 e 94 se soltam. Vejo-as cair com delicadeza até o chão e me abaixo para recolhê-las. Percebo, com surpresa, que algumas sílabas desapareceram e há palavras incompletas, frases a meio caminho, vírgulas e exclamações fora de lugar. Que coisa extravagante!, penso, sem ainda dar-me pelo significado disso. Recoloco as duas páginas fujonas em seu lugar e volto à 59. Antes disso, porém, a 57, a 73 e a 25, imitadoras, também se desgrudam do volume e saem voando, soltando no ar as palavras, as frases, datas e números. Caem as páginas de um lado e, de outro, letras, algarismos, frases inteiras ou pela metade, sinais de pontuação a esmo. Com o volume bem preso nas duas mãos, sacudo-o com força e vejo planando à minha frente tudo o que antes estava impresso. Esse tudo, aos poucos, foi se depositando no chão em câmera lenta.

Agora tenho a história aos meus pés e a oportunidade inestimável de reescrevê-la.

 




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