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13 de junho de 2016

Resignada

resignada3Ela já tinha assumido há tempos, e com resignação, limpar, pelo resto de seus dias, as manchas de café que ele deixava diariamente na toalha da cozinha. Idem para as migalhas de pão que sujavam o piso tantas vezes lavado e encerado e para as gotas de urina que ele insistia em deixar como tatuagem no assento da privada (ele ainda não aprendera que o assento era móvel e podia ser levantado sempre que quisesse — caso quisesse). Resignada, assim era ela. Amarrava a amargura nos bobes que nunca tirava da cabeça e escondia o azedume na camisola encardida que usava todos os dias — iria se vestir pra quê?, pra quem? Resignada, puxava com cuidado a pele do peixe antes de servi-lo, para que ele não engasgasse. Resignada, escutava com serena tranquilidade quando ele falava (pela centésima vez!) como a maionese da mãe dele (a excelentíssima sogra dela, morta há trinta anos!) era leve e saborosa, diferente da que ela (a resignada!) fazia.

Tudo isso ela aguentava em silêncio, arrastando os joanetes e as micoses dentro dos chinelos de lá pra cá naquela casa que, embora espaçosa, era pequena demais para dois seres que mal suportam a presença do outro. Mas de forma alguma, e sob nenhum pretexto, estava disposta a limpar aquela merda toda que ficava espalhada pela sala quando ele dormia no sofá depois do almoço, impregnando os móveis, os lustres e as cortinas. Ela tinha dito e repetido mil vezes: lavar a baba dele do travesseiro ou pegar um cobertor a mais quando o frio gelasse a espinha, tudo bem, isso ela poderia fazer. Mas recolher a merda das recordações e as saudades dos abraços apertados, o ruído dos beijos apaixonados, as risadas, as pernas esculturais com meias de seda, os verões na beira da praia e as noites sob o luar que escorriam dos olhos dele enquanto dormia, isso, nem pensar! Ela tinha mais o que fazer.

 




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