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15 de julho de 2019

Ressaca

Estão nas imediações do porto de rio e caminham sem falar. Ela vai pela calçada, ele, pela rua, e assim parece que os dois têm a mesma altura. Diferem na idade: ele, maduro de quarenta e poucos, desleixado na barba e no vestir, ela, menina de vinte e poucos que sabe o que quer. Ele, no bar onde se conheceram, só fez beber e olhar. Ela não gostava dos rapazes de sua idade, gostou dele e do jeito calado dele. Ficaram. De madrugada, sobre o osso dos paralelepípedos, os passos têm música: jazz no ruído dos sapatos sem cadarços dele, blues no eco que os saltos altos dela produzem. Às vezes o dedo mindinho dele roça o dela, e de imediato se afasta. Ele sonha com histórias que nunca serão escritas, nem por ele, nem por ninguém. Ela, com beijos de vodca e mordidas na orelha. Ele permanece em silêncio, ela quebra o silêncio:

— O que você sabe sobre a solidão?

— Sei muito. É como enfiar dois cartuchos numa espingarda e atirar a esmo com os olhos vendados.

Andorinhas voaram sobre a cabeça deles, tinham nas asas a notícia de tempestades e anunciaram um dia chuvoso. Um ciclista passou perto, levava fones de ouvido e não viu os dois que andavam a passos contados. Uma adolescente vomita na sarjeta, o namorado a ajuda segurando seus cabelos. Um sapo, que não virou príncipe, coacha ali perto. O rio corre mordendo as margens, que fingem não sentir a dor. O porto, deserto, ainda não percebeu o amanhecer.

— Trágico! E do amor, você sabe qualquer coisinha do amor?

— Também sei. É como tirar a venda e disparar apontando para o próprio peito.

A rua logo vai se encher de clones que bocejam, carros e suas buzinas, anjos, carregadores sem camisa, demônios, choro de crianças, esperanças anestesiadas. Gente de ressaca. Eles seguem caminhando e tomam o cuidado de não encostar as mãos. Ele pensa em apertar o corpo dela contra uma parede, ela sonha em dominar a linguagem de sinais para fazer gestos no ar e dizer a ele palavras que ainda não foram inventadas.

— Pra você tudo se resume a atirar…

— Sim. Tristemente sim.

— Eu não penso dessa maneira.

— Um dia vai pensar, respondeu tristemente ele.

Deixaram o porto para trás e foram em busca de um café amargo. A ressaca gritava para ir embora. O corpo dos dois gritava por outras sensações.

 




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15 de julho de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos calçada, corpo, porto, ressaca, tiro

               
              
            
                

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