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20 de outubro de 2016

Ressaca

ressaca

Vinte latas de cerveja são, por assim dizer, um pesadelo insuportável para uma pessoa insegura como Catarina, principalmente quando acorda e vê as ditas-cujas vazias no corredor que dá no quarto onde tinha desmaiado algumas horas antes. Vinte latas — vinte! — jogadas no chão ao lado de seu corpo dolorido. Catarina encosta-se na parede e passa de leve os dedos no metal de cada uma, ao mesmo tempo em que tenta se lembrar da noite anterior e que lugar era aquele. Em vão. Essa é a mais puta ressaca que já tive na vida, acho melhor comprar um cachorro, pensa, fazendo força para se levantar.

Dói a cabeça, latejam os olhos, as articulações estão secas, a língua pastosa, os ouvidos mortos — acho que morri e estou no purgatório, procurando a porta de entrada do céu. Ou do inferno. Catarina cambaleia pelas escadas até o térreo, procura o bar mais próximo, preciso de um suco de limão bem azedo e um café sem açúcar. Já na rua, olha ao redor e percebe que não está longe de casa. No caminho de volta encontra seu vizinho de porta, que lhe faz gestos obscenos com a língua, como é seu costume. Catarina finge que não vê, detesta esse homem com quem divide parede e não raro tenta evitá-lo no elevador.

No apartamento engole umas pílulas para dor de cabeça e tenta dormir. Sonha com lugares escuros, portas que se abrem a pontapés, cortinas fechadas, banheiros imundos, latas de cerveja animadas que falam e cantam. Acorda zonza e molhada de suor. Percebe que há uma marca de chupão perto do seio esquerdo. Acho que a noite foi boa, pensa ela, tentando se lembrar se tinha gozado ou não. Uma dúvida franze-lhe o cenho, será que foi com a besta do meu vizinho?

 




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