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14 de outubro de 2019

Réveillon

Comprou vestido branco e sapatos novos porque quis e a ocasião exigia. A ocasião é hoje. A calcinha também é nova, ela sempre ouviu dizer que é assim que se deve receber o ano novo. Fez tudo o que disseram para fazer e estava ansiosa. Na sala, os doze bagos roxos de uva brilhavam no prato sobre a mesinha de centro. Ao lado, no fundo da taça de champanhe já cheia, a aliança dada pela avó, anos atrás. Celina decidiu usá-la hoje, precisamente na passagem do ano, para atrair as mudanças que desejava. Não que um novo casamento, depois de dois fracassados, estivesse em seus planos, mas porque, quando a ganhou, sua avó dissera Use quando concluir que você não precisa de marido pra ser feliz. Achou graça e prometeu colocá-la no dedo na primeira ocasião especial. Que é hoje. Estava no quarto, quase terminando de se arrumar, quando ouviu, vindo da televisão lá da sala, o anúncio de que ia começar a contagem regressiva. Celina correu com os sapatos de salto 15 na mão e o zíper do vestido branco ainda aberto — não perderia por nada o ritual da meia-noite. Superstição ou não, queria mandar o ano velho para o lixo e receber o novo com estilo. Estava cheia de esperança e otimismo.

Largou os sapatos no chão e sentou-se na borda do sofá. Puxou o prato de uvas para perto de si e pegou o primeiro bago. Pensou que o pior ano de sua vida estava quase dobrando a esquina, e já ia tarde. Engoliu as uvas uma a uma com devoção e urgência, os olhos fechados: um bago para cada número da contagem regressiva, como uma cerimônia — um número, um bago, até o último. Celina estava eufórica, a noite se mostrava perfeita e desta vez ela tinha feito tudo no tempo exato, em sintonia com o relógio da Avenida Paulista que via da janela e com a contagem do homem da televisão. O prato de uvas estava vazio no momento em que gritaram “Zero!” e a barulheira começou. O espoucar dos rojões foi a trilha sonora que ela queria ouvir naquele momento. Os fogos brilhando no céu pintaram sua sala de todas as cores. Ela pegou a taça de champanhe e a ergueu acima da cabeça, animada para brindar com o apresentador da tevê, e bebeu tudo de um gole só. Arregalou os olhos quando o ouviu falando Não estranhem, queridos telespectadores, se lhes faltou um bago de uva durante o brinde. Esta noite, por algum sortilégio que ainda não conhecemos, nosso velho relógio marcou treze vezes em vez de doze. Logo daremos notícias sobre o que aconteceu. Feliz ano novo a todos!

Celina pulou do sofá, a taça de champanhe vazia na mão, no rosto uma máscara de horror. Treze vezes? Isso dá azar, o número treze dá azar!, pensou, apavorada. Teve dificuldade para respirar. Sentiu sua traqueia fechada e desesperou-se. A aliança, engoli a aliança!, quis gritar, mas a voz não saiu. Tateou os móveis para se manter em pé. Boqueando como um náufrago antes do afogamento, começou a correr pela sala buscando ar para os pulmões, tropeçou nos sapatos jogados no chão e caiu com estrondo. Fraturou a bacia e o fêmur esquerdo. A brusquidão da queda liberou suas vias respiratórias e a aliança pulou para fora de sua garganta. Foi então que, mais calma e respirando, deitada no tapete, Celina apalpou o corpo e soube que as mudanças chegaram com o novo ano. Eu não morri ainda, que sorte!, pensou. Sorriu de tanta dor, certa de que a vida, ainda que mude, não muda, muda muito pouco, muda quase nada. Na televisão deram sequência aos festejos e estavam agora transmitindo um show de pagode.




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