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13 de julho de 2017

Revoluções insignificantes

Começou a gritar no meio da rua, sem se importar com os carros que buzinavam quando passavam por ele. Com as costas curvadas, as mãos apoiadas nos joelhos, sua garganta era um chafariz de sons agudos e lancinantes. Os pedestres, com cara de espanto, o olhavam como a um ser de outro planeta, e seguiam caminho, não perderiam tempo com alguém fora de si que grita na rua. A rotina urbana do fim de tarde estava inalterada: os garis continuavam varrendo a sarjeta, os cachorros fuçavam as latas de lixo, os policiais passeavam em dupla, as pessoas entravam e saíam dos supermercados e das agências bancárias. De novidade, só ele e seu grito solitário no meio da rua.

A ninguém importava que ele não se importasse com ninguém e estivesse concentrado na tarefa única e indelegável de gritar. Talvez nisso consista a indiferença, esse sentimento que se alastra pelos subterrâneos da cidade e gruda nos sapatos com a insistência de um chiclete mascado.

Ele corria o risco de ver seu grito considerado perturbação da ordem pública, e banido como o mau hálito entre namorados ou os bocejos em algum concerto de música erudita. Que fosse. Se amanhã outro fizer o mesmo, e se depois de amanhã ele repetir o que fez hoje, terá tido início uma revolução insignificante. Revoluções insignificantes são as únicas que merecem triunfar.

 




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13 de julho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos grito, revolução, rua

               
              
            
                

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