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1 de outubro de 2015

Rito de passagem

carrinho-de-rolimaMãe, vou lá no Carlinhos. Benito bateu a porta e foi na direção da casa do amigo, duas ruas à esquerda. Carlinhos não estava. Quando voltou, Benito disse à mãe, chorando, Será que o Carlinhos morreu? Ele não estava e não tinha ninguém lá. A mãe estava ocupada com as coisas da casa, Você vai arranjar outro amigo, não se preocupe com isso.

Benito se sentou na soleira da cozinha, os cotovelos nos joelhos e o rosto entre as mãos. Ele vai voltar, sei que vai. Porque não podia ser que Carlinhos tivesse se esquecido da bola, do carrinho de rolimã, de todas as bolinhas de gude e até do relógio que não andava, É tudo dele e ele tem que pegar de volta. A noite chegou estrelada e Benito não sentia vontade de entrar em casa. Olhou o céu e ali se deixou ficar. A mãe gritou Entra, Benito, está frio aí fora.

Em vez de entrar, Benito pegou a bola, o carrinho, as bolinhas de gude e o relógio e foi em busca de Carlinhos. Caminhou duas ruas à esquerda e de novo não ouviu a voz do amigo, tampouco ouviu o vento nas árvores ou o correr preguiçoso do córrego ali perto. Tudo estava silencioso. Passou a noite toda olhando em volta, procurando Carlinhos. E foi uma noite muito longa, estrelada e branca, que cobriu sua roupa e seus sapatos e seus cabelos de uma poeira espessa vinda do céu e que cobriu toda a paisagem. Benito pensou que a vida era muito curta. Pensou que ontem o Carlinhos estava ao lado dele, e hoje não estava mais. Pensou nas coisas importantes que conversavam sempre, E agora, com quem vou conversar? Pensou que não se podia perder amigos assim, amigos verdadeiros, amigos que têm que nos acompanhar a vida inteira. Isso é muito injusto, Benito pensou.

Quando nasceu o sol, Benito estava com fome, sede e saudade de casa. Passou as mãos pelas roupas e cabelos para tirar a poeira. Esticou os braços num longo espreguiçamento e olhou os brinquedos a seu lado. Que bobos são esses brinquedinhos! E esse relógio que não anda, não serve de nada. Pegou todos eles e os jogou num poço. Caminhou na direção de sua casa. Quando a mãe abriu a porta, assustou-se. Como cresceu esse menino, por Deus!, parece até que foi da noite para o dia. E comprou para Benito umas roupas de adulto, porque aquelas que ele usava já estavam curtas demais.

 




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1 de outubro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos adulto, criança, passagem, rito

              
            
  1. Como que por algum desencantamento, o fim da infância pode representar o início das turbulências da vida. Dos sonhos, fracassos, uma saga inevitável. Mas é bom, viver. Parabéns pelo conto.

    • João, obrigado pela visita e comentário. É uma transição dolorosa, não é mesmo? Mas todo mundo tem que passar por isso. No fim, o saldo é sempre positivo (quer dizer, nem sempre…). Grande abraço e apareça sempre por aqui.

  2. Engraçado… Escondi meus “brinquedinhos” numa caixa e, uma vez ou outra, quando as roupas adultas me apertam e incomodam, abro-a na esperança de me fazer de novo criança, então saio em busca da poeira que vem do céu e nos faz sentir tão vivos quanto com frio! (rs)

    • Oi, Rafael, que alegria vê-lo por aqui! Talvez o Benito volte um dia àquele poço e reencontre os “brinquedinhos bobos”. Talvez ele reencontre também o Carlinhos, o amigo que deveria ser para toda a vida, “mas a vida não é justa”. Por enquanto, o Benito está provando a dor e a delícia de se tornar adulto e de vestir roupas de adulto. Obrigadíssimo pela visita, é sempre um prazer ler você. Abraço.

  3.     
                        
              
            
                

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