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22 de abril de 2016

O rosto do meu pai

rosto de cristo2Quem viu primeiro, mal o galo cantara, e gritou, horrorizada, foi a beata Madalena. O braço esticado para a frente, com o indicador em riste, parecia paralisado. Os olhos não desgrudavam daquilo que — ela gostaria de poder se expressar — parecia ser obra do demônio no altar da casa de Deus: Heresia! Heresia!, sua boca não conseguia articular palavra outra. Padre Lucas apareceu em seguida, atraído pelo barulho, e comprovou: Heresia! Ordenou o imediato toque dos sinos e em poucos minutos a escadaria da igreja estava lotada de gente.

Entre os gritos de assombro, sinal da cruz feito várias vezes e às pressas sobre rostos enrugados e raivosas exclamações de Vergonha!, todos tinham um só desejo: descobrir quem era o culpado, cobri-lo de cuspidas e impropérios e fazê-lo sangrar até a morte. Padre Lucas subiu a voz e lembrou a todos a misericórdia de Deus — novas persignações, choros abafados e Heresia! pronunciada entredentes.

O primeiro suspeito foi Sandoval, menino sem ocupação, perambulava o dia todo pela cidade, vivia de biscate e roubava moedinhas nas mesas dos bares. Menino à toa, foi ele!, gritaram alguns. Foi a Lena, aquela louca mansa, não tem marido, anda sozinha à noite, gritaram outros. Nenhum dos dois estava ali para se defender. Eu tenho uma espingarda, trago eles agora mesmo, no bico da minha arma, ameaçou o açougueiro Waldomiro, ajeitando as fraldas sujas de fezes dentro das calças. A beata Catarina apertou a dentadura nas gengivas e acrescentou, valente, O culpado que for, eu ajudo a dar a surra, que minha mão pesada não me deixa mentir. Eu também!, fez coro o sacristão Juvêncio, que não enxergava muito bem, mas sabia tudo da vida dos outros.

No meio da algazarra que se formou na porta da igreja, um grito fez a multidão subitamente emudecer: Não precisa nada disso; fui eu!, e era a voz do Abel. O Abel, o jovenzinho que cultivava o buço recém-nascido sobre os lábios finos, e que na semana passada tinha chorado de dar pena sobre o corpo do pai, morto pela febre e com o rosto quase uma caveira, sumido, só pele e osso de tão magro? O padre Lucas estendeu o braço sobre toda a gente, exigindo silêncio. Chegue aqui, Abel, não tenha medo, pediu ele ao menino. As pessoas abriram alas para a sua passagem. Franzino, tímido, os olhos baixos, Abel parou na frente do pároco.

O padre Lucas ordenou ao sacristão, Vá buscar, e ele foi. Quando voltou, trouxe nos braços a imagem de Jesus com um buraco no lugar do rosto. Uma imagem sem face, sem olhos, nariz ou boca: só um espaço vazio, um oco. A visão da imagem adulterada provocou nova onda de ira entre os presentes, que cobriram o rosto diante do horror. Heresia, Deus tenha misericórdia do violador, gritou a beata Altiva, segurando o decote da blusa, que teimava em revelar mais que o permitido. Margarida, a dona da pensão para forasteiros, passou rapidamente o batom nos lábios antes de proferir com voz colérica Tem que linchar! Lincha! Lincha!

Com as mãos sobre os ombros de Abel, o padre Lucas falou com mansidão Por que fez isso, filho? Está com raiva de Jesus? Com alguma mágoa? Sem levantar a cabeça, Abel respondeu Não é isso. O padre insistiu Então, o que é? O menino, com gesto delicado mas firme, afastou as mãos do padre de seus ombros. Ergueu a cabeça e sentiu os olhos de todos cravados em sua nuca. Fixou o olhar no padre e, no silêncio que baixou sobre a multidão, disse Eu só queria que tivesse o rosto do meu pai.

 




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