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21 de março de 2016

O rosto sob a navalha

informe da situaçãoNaquele tempo havia o exército nas ruas, para cuidar da ordem. Nas ruas também havia pessoas. As pessoas não gostavam do exército e vice-versa. Havia muita vida (e morte) nas ruas e também fora delas, em lugares escondidos que algumas pessoas conheceram, não todas as pessoas que existiam nas ruas, apenas algumas delas. Era também um tempo em que, aqui e ali nos cantos da cidade, havia barbearias. E, dentro das barbearias, trabalhavam os barbeiros. Ernesto era, entre outras coisas, barbeiro.

Ernesto afiava as navalhas de uso diário quando ele entrou. Não cumprimentou o barbeiro. Tirou e pendurou o paletó, deu uma olhada no espelho, passou a mão pela barba cerrada, Quase nem me reconheço com esses pelos na cara, disse, sorrindo para si mesmo. Sentou-se na cadeira e esperou. Ernesto não se virou, mas reconheceu a voz, que estava o tempo todo na televisão e no rádio. Sentiu as mãos tremerem enquanto finalizava seu trabalho de afiar.

Faz um calor do cão, quero que tire esses pelos do meu rosto, disse o homem, afrouxando a gravata. Sim, claro, é pra já, Ernesto começou a preparar o necessário: toalha de linho, cuia, sabão, pincel, navalha. Enquanto cobria o corpanzil do cliente com a toalha, olhou-o pelo espelho: Barba de cinco dias, no mínimo. Não deve ter tido tempo, esse verme. Caçando gente nossa.

Ernesto preparou a espuma, mexendo vigorosamente com o pincel o creme dentro da cuia. Olhava sorrateiramente o cliente: Não tem feições desagradáveis, o rosto é bem formado e simétrico. A voz do homem soou novamente: Muito trabalho, sabe? Em cinco dias, estouramos dois aparelhos. Sem tempo nem pra fazer a barba. Mas estamos chegando aos cabeças. Questão de tempo. Só mais uns dias e pronto. Fechou os olhos para descansar. Ernesto comentou de forma dissimulada: É, parece que o senhor trabalhou mesmo nesses dias. A espuma ia se avolumando no rosto do homem, sob o movimento enérgico da mão do barbeiro. Quantos caíram?, a voz de Ernesto tremeu de forma imperceptível. Quinze, respondeu o homem, ainda de olhos fechados. Mas já estamos monitorando outros três aparelhos na periferia. Questão de tempo, repetiu ele, espichando-se. Cruzou as pernas, a cabeça reclinada no encosto alto da poltrona.

Atordoado, Será que ele sabe quem sou?, com a cuia de espuma e o pincel nas mãos, Ernesto espalhou a espuma no rosto do homem. Nunca o tinha visto tão de perto, só pelos jornais e televisão. Agora ele estava ali, a poucos centímetros. O rosto e o pescoço do delegado Delboni, o carniceiro. O odiado, maldito, lazarento delegado Delboni. O barbeiro movimentou mais a espuma, até cobrir as duas faces do homem, que continuava de olhos fechados, entregue à massagem suave do pincel e ao frescor do creme de barbear.

Se eu pudesse, bem que tirava um cochilo agora, mas não posso. Saindo daqui tenho diligência, bocejou o delegado. Aparelho pra estourar?, Ernesto tentou parecer casual. Não, apertar uns caras que pensam que são espertinhos. Três ou quatro, coisa pouca. Espuma espalhada, Ernesto pegou a navalha. Tenho que fazer essa barba com muito cuidado, com esmero, pra que nenhum poro solte uma só gota de sangue. Cuidando para que a pele do rosto fique lisa e sedosa. Eu sou um bom barbeiro, tenho fama, sei do meu ofício.

A navalha manipulada pelo barbeiro subia e descia no rosto do delegado, eliminando a espuma e deixando aparecer a pele sem pelos. As duas faces, o queixo, o bigode, a costeleta. Um rosto limpo emergiu. O homem aprumou-se na cadeira, tirou as mãos de sob a toalha e acariciou o próprio rosto. Olhou-se no espelho: Está bom, bom trabalho. Acabou?

– Não. Ainda falta o pescoço. Ernesto preparou mais creme na cuia.

O delegado voltou a se reclinar na cadeira e a fechar os olhos. Ernesto ensaboou o pescoço gordo do homem e pegou a navalha. É no pescoço que ficam os pelos mais encravados, mais duros. A barba dele é crespa. Os poros podem se abrir, como pequenas bocas, e soltar um fio de sangue. Um bom barbeiro como eu não pode deixar que isso aconteça. O pescoço do carniceiro estava em suas mãos. Quantos companheiros meus ele torturou? Matou? Ernesto subia e descia a navalha com delicadeza, limpando na toalha o excesso de espuma. Olha essa veia aqui no pescoço, espessa e azulada. Ele está de olhos fechados e eu serei certeiro, vai ser rápido, sem chance de revide. Depois peço ajuda para sumir com o corpo. Termina de barbear o pescoço do delegado. Vai até a pia para lavar os apetrechos: Eu não sou um assassino, pensa, a camisa empapada de suor.

O delegado tirou a toalha do peito, secou o rosto e vestiu o paletó. Obrigado, disse ele. Deixou o dinheiro sobre o balcão e foi lentamente para a porta. Parou e, sem se voltar para Ernesto, Tinham me dito que você me mataria. Vim até aqui para comprovar. Matar não é fácil. Eu sei o que estou dizendo. E saiu da barbearia.

 




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