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10 de julho de 2015

Ruídos

ruídoNo escuro do quarto sei que você ainda não pegou no sono porque ouço o ruído de seus pensamentos, que é mais tonitruante que o dos seus sonhos. Quando você sonha, escuto barulho de água, de vento bulindo nas folhas, às vezes até de ondas lambendo a areia da praia. O ruído de seus pensamentos é de outro matiz: pedras que se quebram, o som seco do machado ferindo a madeira, lâmina fria no corte da carne. Se neste exato momento eu acendesse a luz, sei que contemplaria todos os seus pensamentos esparramados pela cama, ávidos por ganharem vida em forma de palavras. Mas não me atrevo.

Quando, angústia ardendo no peito e na voz, arrisco um Está pensando em quê? sem nenhuma convicção, protegido pelo escuro, ouço o seu Em nada. Esse “em nada” reverbera no quarto, trovão em noite quente, golpe de objeto fino e pontiagudo diretamente no tímpano. O eco de sua voz permanece por longos minutos no silêncio do quarto. Uma motosserra, que divide nossa cama em dois pedaços. E a mim cabe a parte mais gelada dessa partilha.

 




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