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8 de maio de 2020

Sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar? (*)

ASAS

Para alguém nascer com asas,

o forjador precisa manejar muito bem a lâmina,

cortar a carne rente

e arremessar o corpo no espaço,

com a certeza de que quem concede o voo

não é o céu, a altura —

é a caída, o abismo.

 

VERMELHO

Na cidade vazia

tudo é branco.

Branco sobre branco, sem nuances,

contrastes, distinções.

Apenas branco sobre branco,

menos aquilo caído ali adiante,

vermelho:

é o meu coração que sangra.

 

ANDAR PARA TRÁS

De vez em quando caminho para trás:

é a minha maneira de recordar.

Se caminhasse só para a frente

eu poderia contar a todos

como é a face do esquecimento.

 

CANTO TINGIDO

As folhas das árvores

liberam seu sumo perfumado e essencial

e tingem a voz

da floresta.

Por isso digo:

o canto dos pássaros é verde.

 

NINHO

Não temo a serpente,

mas a estupidez que me faz

meter a mão em seu ninho.

 

FERIDA

Por que fazer um poema que respira

pela fenda da ferida?

Porque a ferida segue aberta

e o poema não pode emudecer.

O poema vive:

respira, sua, defeca, suspira, grita,

fica exausto de não ser,

até que morde com raiva a beira da carne

do leitor.

 

(*) verso da canção “Esquinas”, de Djavan




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