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7 de setembro de 2020

Saber a mar

Lá embaixo o mar está em calmaria, e isso mexe com a memória de Jonas. Mar calmo não é bom, é ilusão, ele se lembra. Em vão afunda a cabeça no travesseiro. Não dorme, não consegue. Tanta calma assim estira seus nervos. Sai da cama no escuro, abre a porta da rua e desce até o cais. Senta-se numa pedra e olha a imensidão à frente. Fica horas ali, esperando a madrugada raiar. Revê um filme, o mar estava calmo como agora. E então o peixe enorme, e então o grito, e então a luta, e então o sangue, e então a perna…

Nem bem a noite termina, os pescadores aproximam os barcos e descarregam os peixes no tablado de madeira. Em poucos minutos os compradores chegarão para disputar os melhores frutos que os homens trouxeram do mar, Jonas conhece essa rotina. Arrastando a perna mecânica, sobe o morro São Pedro e entra em casa. Vai direto para a cama. Beija a testa de Rosa, sua mulher, cuidando para não despertá-la, e procura dormir. Ela se volta para ele e o enlaça pela cintura. Sussurra, os olhos fechados: “Tu, sim, sabes a mar, marinheiro.” Jonas sorri e, mais uma vez apaziguado, agarra o sono.

 




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