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23 de abril de 2015

Salomão

cegonha

Nesta cidade esquecida do mundo há muito tempo as cegonhas não aparecem. Decerto preferem sobrevoar locais mais povoados e deixar lá a mercadoria que levam pendurada no bico. Isso é o que parece, mas eu não perco a esperança. Por um descuido, pode ser que uma delas deixe cair aqui um desses embrulhinhos delicados. Na primavera, que é o tempo em que elas voam em bandos, eu não desgrudo os olhos do céu, quem sabe não será desta vez? Ano após ano, renovo meu olhar para o alto e realimento a confiança em meu peito.

Aconteceu há dois dias: um daqueles embrulhinhos caiu a toda velocidade e eu corri e me adiantei para sustê-lo em meus braços, sem perceber que Almerinda estava à espreita. E foi assim que nós duas, ao mesmo tempo, agarramos o presente que veio do céu. É meu, eu vi primeiro, ela disse. Mas eu o agarrei e evitei que batesse a cabecinha no chão, disse eu. Esse é para mim, ela retrucou. Não, é para mim, eu subi o tom de voz. No final, a decisão salomônica: metade para uma, metade para a outra. A mim coube a parte de baixo, a ela, a parte de cima. Eu troco as fraldas e faço lindos sapatinhos de tricô; Almerinda lhe dá de comer e o penteia como a um principezinho. O que não consigo suportar é que ele dedique só a ela o seu lindo sorriso de anjo. E não há quem me convença de que existe amor pela metade.

 




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23 de abril de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos amor, bebê, cegonha, metade

              
            
  1. Gosto muito dos contos e comentários do Mario Baggio.Ele é muito culto, criativo e escreve de maneira bem objetiva e compreensível.Parabéns

    • Elizabeth, obrigado pela visita. É sempre uma alegria saber que meus textos são do agrado de alguém. Apareça mais vezes. Grande abraço.

  2.     
                        
              
            
                

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