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8 de julho de 2016

Santa Helena

cachorro2Santa Helena, a cidade, não está preparada para uma coisa dessas, um acontecimento inusitado assim, bizarro assim. E não é que Santa Helena esteja livre de pecados. Não está.

Em Santa Helena os assassinos fazem hora extra para que a cada manhã, enquanto os cidadãos de bem tomam o café da manhã com a mesa posta com esmero, o locutor do rádio e da televisão narre os crimes cometidos na noite anterior, fale das facas que rasgaram gargantas e descreva as armas de variado calibre que estouraram cabeças, peitos e automóveis.

Os cidadãos de bem de Santa Helena nem bem ganham as ruas como formigas atarefadas na direção de seu trabalho quando os ladrões já estão em seu escritório dando ordens para baixar salários, subir impostos e majorar o preço do pão, do leite e dos cereais e impondo que tudo se torne mais escasso e difícil de encontrar.

Não são esses os problemas de Santa Helena, não é a opressão, não é o descaso, não é a prepotência, não é a miséria. Mas para um acontecimento assim, inusitado assim, Santa Helena não está preparada. Ainda que possa suportar como rotineiro que os mendigos morram nas ruas tiritando de frio, febre e medo, que as crianças peçam nos semáforos algumas moedas para que seus pais não as matem a pauladas, que os mais jovens não enxerguem futuro e se percam pelas esquinas, que as mulheres exponham seu corpo a troco de nada, a cidade não sabe como lidar com essa novidade surgida não se sabe quando, que incomoda, exaspera, estira os nervos e quase enlouquece quem deseja apenas tocar a vida.

O problema de Santa Helena são os cachorros. Magros e doentes, nos bairros mais distantes e nos antros profundos de imundície e indigência, eles começaram a latir dia e noite sem trégua, sem um só instante de alívio para sua garganta rouca. Não há nada nem ninguém que os faça parar ou interrompa seus gritos lancinantes.

Santa Helena, a cidade, não está preparada para algo assim tão surpreendente.

 




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