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24 de janeiro de 2016

São Paulo: um olhar sobre uma cidade que dói

sao-paulo-skylineAbro a janela e não há sol, apesar do calor. Hoje é meu dia de folga, nesta cidade que nunca para. Começa a chover forte em São Paulo. Aqui há de tudo, menos meio-termo: ontem noticiaram que haveria falta d’água, hoje a população tem que conviver com ruas que são verdadeiros rios. Passo pelo Minhocão, esse inacreditável monumento ao mau gosto – sempre saio daqui diferente, mais feio ou mais triste. Às vezes, as duas coisas juntas, como hoje.

As pichações por onde quer que se olhe são a declaração de uma cidade destinada a ser feia, com poucos lugares onde os olhos possam descansar, como num oásis. Há beleza em São Paulo, mas é preciso garimpá-la; a dica é seguir a trilha do dinheiro (aí, quem sabe, se descubra que a cidade possui um ou outro local mais arrumadinho).

Um amigo disse uma vez que a cidade, tal como uma cafetina engordurada, cobra preço alto pela ocupação dos espaços; um preço de dor, de amargura, de impotência. São Paulo oferece de tudo – tudo mesmo – a seus habitantes, tudo de bom e tudo de ruim; é uma cidade que não esconde sua vocação para o exagero e os excessos. Trânsito? O nosso é o maior do mundo. Rios? Os nossos são os mais poluídos do planeta. Segurança? A nossa é a mais deficiente que existe. Poluição? Pode ser que a nossa não seja a maior do mundo, mas estamos chegando lá.

Passear por São Paulo implica desligar o botão da sensibilidade e vencer os obstáculos que aparecem pela frente como os moinhos de D. Quixote: os buracos nas calçadas, os carros, os malabaristas do sinal vermelho, os outros pedestres, os ambulantes, os mendigos esparramados pelo chão, o lixo que transborda, as pessoas que moram num lado da cidade e trabalham em outro, cujo percurso é feito à custa de muito sofrimento. São mais que obstáculos: são feridas que nunca cicatrizam numa cidade que dói.

À noite a Avenida Paulista ferve e grita de tão excitada e meu peito grita igual, de susto e deslumbramento.

Volto para casa e me deito. Amanhã a cidade doerá mais uma vez.

 




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  1. Pior meu amigo Mário é que se paga tudo cara pra se viver essa ferida aberta, nao so em especie, mas em estres,panico e dor mesmo….É a cara dessa cidade o que escreveu exceto na rota do dinheiro.

  2.     
                        
              
            
                

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