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6 de outubro de 2016

Se ele não tivesse tido o pai que teve…

preço

Eu preferia não dizer nada. Não tenho nada a declarar. O que eu vou dizer, se meu filho não fez nada? Nem sei por que está preso, não me disseram o motivo, não me disseram nada. Aliás, vocês nunca dizem nada, não é? O mais difícil de tudo neste país é entender por que a polícia faz o que faz. Jackson, o meu filho, é um santo. Um moço que não anda fora da linha, nunca andou. Tenho certeza de que não foi ele. E quem diz isso é uma mãe que conhece o seu filho. Porque não há ninguém que conheça uma pessoa melhor que a mãe. E eu digo: não foi o Jackson, que eu não botei filho no mundo pra isso.

Meu coração me diz que meu filho não seria capaz, e eu costumo ouvir meu coração. Lembro-me do Jackson pequeno, quando eu e o pai dele tínhamos uma criação de patos. Se eu matasse um pato pro almoço de domingo, o menino nem chegava perto da mesa. Ficava sem comer. Como é que eu vou comer um bicho que eu vi de pertinho, nadando no lago?, ele perguntava. Eu respondia meio brincando: Antes o pato do que nós. A gente precisa comer senão morre. Nesse dia ele passava com sanduíche e só. Igual quando os primos jogavam pedra nos gatos que apareciam em volta da casa. Ele não gostava, falava pra não jogar, que ia machucar os bichos, e até brigava com os primos, apesar de que sempre foi menorzinho que eles. Como então uma pessoa assim, com esses pensamentos, poderia ser um delinquente, que é o que a polícia diz que ele é?

E depois, quando o Artur me deu aquela bofetada na cara, a primeira, quero dizer… O Jackson, pequenininho, viu com aqueles olhos arregalados, sem entender que o pai estava bêbado, e todo mundo sabe do que é capaz um homem quando bebe. Naquele dia, o do primeiro tapa, ele não fez nada, porque não sabia o que estava acontecendo. Mas nas outras vezes, quando o Artur vinha pra cima de mim, ele já estava grandinho e era o primeiro que corria e ficava na frente, pra me defender. Um moço que protege a mãe assim não faria uma maldade dessas, não é verdade?

Tenho certeza de que não foi ele, não foi o Jackson. É bem verdade que ele é impulsivo, às vezes reage sem pensar contra qualquer coisa… mas é um moço bom. E, se por acaso ele fez isso que a polícia diz que ele fez, garanto que foi por acidente, foi sem querer, uma reação de momento. A cara dessa moça, toda retalhada com estilete… Garanto que ela provocou, ela pediu, fez por merecer. Essas moças de hoje, o senhor sabe como são. Tem funk, tem pancadão, elas usam shortinho, maquiagem pesada… Mas o meu filho não fez, tenho certeza. Se ele não tivesse visto o que o Artur fazia comigo, desde quando ele era pequeno… Se desde aquela época eu tivesse saído de casa com ele e ido pra longe… Mas onde é que uma mãe e uma criança pequena podem ir sem dinheiro? Se ele não tivesse tido o pai que teve…

 




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6 de outubro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos filho, mãe, pai

              
            
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