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12 de fevereiro de 2015

Sede de fé

pescocudos

Há sete anos não chove na cidade. Já nem sequer olhamos para o céu, exceto para amaldiçoá-lo por tanto azul e pelo sol que nos fustiga. Hoje em dia nossa comida é temperada com poeira e o único rio que temos, enquanto o temos, trata de nos dar de beber. Nesses anos de estio, a cada vez que víamos aparecer nuvens no horizonte, erguíamos nossa cara e abríamos a boca para ver se conseguíamos abocanhar alguma gota de água caída do alto; ninguém nunca viu um só pingo sequer. Agora, quando aparecem algumas nuvens, nós as afugentamos para longe, que não venham nos dar falsas esperanças. Não acreditamos mais nelas, nossa fé acabou. Só abrem a boca para as nuvens uns poucos ingênuos que ainda restam na cidade. São uma minoria, um reduzido grupo de infelizes que, como nós éramos há alguns anos, ainda têm sonhos de beber água apenas olhando para cima e abrindo a boca.

 




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12 de fevereiro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos água, , nuvens, poeira, sede

               
              
            
                

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