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30 de janeiro de 2021

Sede

Na sala da casa sempre reinou, soberana, a imagem do menino morto. Fotografias de tamanhos variados e diversas épocas estão nas paredes, estantes e mesinhas. Para os irmãos que vieram depois dele, elas sempre fizeram parte da decoração. E pouca atenção se dá aos objetos de decoração. Nunca falavam dele. Estava ali como um vaso, um bibelô ou um enfeite qualquer. Era, no entanto, uma presença sentida por todos durante os almoços, as festas e as reuniões familiares.

Mais de sessenta anos se passaram e Maria vem se esquecendo de muitas coisas. Esquece-se de onde colocou os comprimidos, em que gaveta pôs o dinheiro da aposentadoria, que para fritar um ovo é necessário um pouco de azeite quente. Esqueceu-se de sua idade: ela não sabe que está beirando os noventa anos. Mas de uma coisa Maria nunca se esquece: de que, quando o menino das fotografias morreu, o médico havia proibido dar-lhe de beber, e que ele passou sua última noite repetindo “Mãe, tenho sede”.

 




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