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28 de outubro de 2016

A segunda corda mais grossa

piano4

O pequeno Vladimir foi parido para o piano. A ninguém, nem a seus pais, importou, nunca, se ele tinha nascido para ser jogador de futebol, gerente de banco ou cantor de rock. Em nenhum momento lhe perguntaram se queria ser filósofo, motorista de táxi, astronauta, palhaço ou escritor, porque isso a ninguém interessava, já que não tinha cabimento que ele quisesse fazer, ou mesmo sonhasse fazer, algo distinto de tocar piano e compor música.

Quando tinha o tamanho de um criado-mudo, Vladimir dormia sobre o banquinho que havia na frente do negro e lustroso Steinway que reinava, solitário, na sala da casa. Antes de cair no sono, porém, chorava um pouquinho, sempre em lá menor. Seus dedos, com o tempo e muito exercício, foram se alongando e se fortalecendo, e Vladimir passou a medir pequenos espaços não em palmos, mas em oitavas. Já adulto e concertista famoso, nunca abandonou o gesto — mesmo quando estava nu — de, antes de se sentar, afastar atrás de si a aba do fraque.

Protegeu e cuidou de suas mãos como quem guarda um tesouro. Eram mãos de artista. Elas ainda conservavam sua aparência de alabastro, brancas e brilhantes, mesmo com seu corpo há dias pendendo do teto, suspenso pela segunda corda mais grossa do Steinway. A do si bemol, disseram aqueles que entendem de cordas de piano.

 




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28 de outubro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos cordas, pianista, piano

               
              
            
                

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