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4 de outubro de 2017

Sem tempo pra pensar nela

Quando não é uma janela quebrada, é o pé da mesa que está torto. Às vezes, pega o saco de lixo e o leva até a lixeira no quintal. Outras vezes eu o vejo enchendo a tigela de ração do Pingo. Nos finais de tarde está religiosamente no ponto de ônibus, esperando minha irmã menor na volta da escola.

No começo da noite, a varanda convida para uma taça de vinho junto com o amigo Alfredo, que vive duas quadras abaixo. Olhando o jardim de cravos e rosas logo em frente, o sorriso não abandona seus lábios. Quando me aproximei para pôr junto deles um pratinho de picles, escutei sua voz:

— A verdade, meu amigo, é que não tenho muito tempo pra pensar nela. Amanhã cedo, por exemplo, tenho que ajudar meu genro na oficina, depois vou podar as heras do muro e à tarde estudar a tabuada do nove com minha neta.

O amigo Alfredo, nonagenário como ele, tinha acabado de perguntar se ele não tinha medo da morte.

 




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4 de outubro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos morte, velhice

              
            
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