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28 de setembro de 2016

Sentidos

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Dalva cobre os olhos com um lenço negro de seda e tudo ao redor recupera o cheiro, a forma e a textura. Ela passeia por sua casa guiada pelas mãos e acaricia os objetos que seus dedos encontram. O eco do barulho da rua ainda está presente em sua cabeça e ouvidos. Sente com o tato a forma elegante das peças de louça dispostas no aparador da sala. Apoia o rosto no vidro da cristaleira e o frio arrepia suas bochechas. Vindo da cozinha, o cheiro das rabanadas invade suas narinas e ela antecipa o sabor na água que se forma em sua boca.

Desde que operou os olhos e passou a ver, o mundo real, com suas luzes e sombras, transformou e embruteceu a vida de Dalva. Quando tudo era escuro as coisas tinham mais brilho. Agora que vê, os raios luminosos lhe rasgam a córnea, a íris e a alma. Sua alma dói, assim como dói vê-lo como ele é de corpo inteiro, por dentro e por fora. As mentiras dele lhe doem. Doem-lhe as ausências, como a de hoje. Por isso carrega o lenço negro de seda sempre à mão. Assim que ele sai, Dalva cobre os olhos e volta no tempo, quando tudo era apenas um buraco negro e ela percebia as coisas em volta com seus outros sentidos. Não tinha olhos e não via e assim, e só assim, conseguia carregar no peito um coração que não sentia.

 




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