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15 de setembro de 2016

Siamês

siames

Havia simetria, espelho perfeito com duas cabeças, duas costas, duas nucas, quatro glúteos em harmonia. As mãos com duplo dorso, joelhos que se tocavam, calcanhares em oposição, quadris que se completavam — a natureza, e só ela, decide que desenho criar, que engenho produzir, que imagem apresentar para o espanto dos olhos humanos.

Agora toda a parte frontal do meu corpo não é outra coisa senão ausência. De dois restou um: eu. Não sei dizer que serra elétrica, que faca a laser, que tesoura afiada extirpou a outra parte de mim, e é isso o que sou: a metade, o meio, cinquenta por cento de um inteiro que pulsava, respirava e sentia em dobro.

Pergunto e a resposta não vem: onde foi parar o resto de mim? Que destino teve minha gêmea confrontação? Que fim levou a parte que me tornava singular e, ao mesmo tempo, plural?

O que sei, porque aprendi, é que, às vezes, quando tenho saudade e olho pra dentro de mim, sinto um nariz apoiado em meu nariz.

 




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