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2 de outubro de 2018

Silenciosa

Recebemos o aviso e saímos correndo. Cada um pegou o que pôde — um agasalho, os documentos, um saco de salgadinhos, água — e fomos desembestados pela rua. Quando chegamos ao descampado e a vimos, paramos a distância segura, nem muito perto, porque ainda era desconhecida e não sabíamos do que seria capaz, nem muito longe, porque não seríamos loucos de perder essa oportunidade tão rara.

Ela estava lá diante de nós: redonda, gigante, imensa, azul e silenciosa. Misteriosa e solitária, exatamente como a imaginávamos. Nos aproximamos com cautela e, quando sentimos segurança, relaxamos. Um do grupo fez comentários, soltamos exclamações, outro lançou perguntas, a curiosidade de todos nós não tinha limite.

Eu quis me aproximar mais, mas um de meus colegas sugeriu que jogássemos pedrinhas para ver a reação dela. O mais jovem da turma disse que era melhor gritar e esperar para ouvir se vinha algum som de volta. O mais velho disse que seria prudente fretar um aviãozinho no aeroclube para examiná-la do alto. O mais ansioso de todos quase brigou com os outros para defender sua ideia: transportá-la com cuidado até a universidade, para que todos pudessem estudá-la com método, disciplina e filosofia.

Gastamos a tarde inteira em discussões sobre como interagir com ela e, quando a noite desceu, voltamos para casa sem chegar a consenso. Ela ficou ali no descampado, redonda, gigante, imensa, azul e silenciosa.

 




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2 de outubro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos curiosidade, silenciosa

               
              
            
                

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