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10 de abril de 2017

Sociedade

No começo, só as meninas bonitas e os meninos com tênis de grife podiam participar daquele jogo que eles mesmos inventaram e cujas regras impuseram; depois, os outros tiveram a entrada franqueada e a sala de aula virou um grande teatro. Cada um tinha um papel a representar. Havia gente da classe alta, da média e da baixa, ricos, pobres, ladrões, assassinos, agiotas, estupradores, ostentadores, exibicionistas, jogadores de futebol, artistas, prostitutas. Um dos meninos insistiu em interpretar um político corrupto, outro disse que queria ser um policial e, ato contínuo, correu atrás dos meninos feios sem tênis de grife, brandindo um pedaço de pau. Recriaram cenas que viram na televisão e nas ruas, reproduziram conversas de adultos que ouviam em casa, tudo sob o olhar incentivador da professora.

— Que legal!, gritaram as meninas bonitas. Que nome vamos dar a esse novo jogo?

— Sociedade, gritou um dos meninos com tênis de grife.

— Isso mesmo! Sociedade!, ecoou um dos meninos feios, com o nariz empapado de sangue, esperando a professora, que tinha saído correndo em busca de um lenço e água gelada. Sociedade!, repetiu o menino feio e ensanguentado, louco para voltar à brincadeira.

 




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