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15 de fevereiro de 2017

Solidão para uso diário

Esse homem poderia se chamar Antenor, mas daria no mesmo se seu nome fosse Bismarque ou Frederico. Lembro-me de que, por um ou dois copos de vinho e um pouco de companhia, falamos mentiras um ao outro, da mesma maneira que mentem as pessoas cuja alma chega machucada ao final do mês, quando o salário acabou antes. Eram só palavras, era só um tempo gasto entre amigos que acabaram de se conhecer e têm vidas que não revelam, por descoloridas e sem nada que pudesse interessar a outrem.

Antenor me disse: sou marinheiro e nasci no Canadá. Eu lhe respondi: por azar não sou marinheiro nem nasci no Canadá, mas não descarto a possibilidade de um dia chegar a ser marinheiro e descobrir que nasci no Canadá, há sessenta e oito anos, e que meu pai tenha escondido de mim esse fato. Rimos bastante durante um bom tempo, os olhos sempre tristes e muitos copos de vinho emborcados.

Ele me falou de uma mulher, que poderia se chamar Soledade, mas daria no mesmo se seu nome fosse Abigail ou Marieta. Aquela que o abandonou, deixando-lhe dívidas e caspa no cabelo. Disse que ouve música desde então, muita música, tanta música, porque as horas são demasiadas e tão largas que ele precisa ocupar esse oco. Percebeu que as amarguras não são tão amargas quando as canta Chavela Vargas*.

Eu, por meu turno, lhe contei sobre Mariângela, mas daria no mesmo se fosse Ana ou Esmeralda, a mulher que me amava e que morreu atropelada por um insensível em cima de uma bicicleta. E veja só, meu amigo, que grande coincidência: minha mulher tinha o dom de rir como chorava Chavela*.

Agora com nossa amizade consolidada e encharcada de vinho — e justo na hora em que a tarde ia indo embora, confundida com o cansaço dos que passavam pela rua, o trabalho suspenso nas costas até a manhã seguinte —, decidimos nos despedir e zarpar rumo a qualquer lugar, talvez o Canadá.

Permitam-me que lhes lembre: esse homem poderia se chamar Euclides, mas daria no mesmo se seu nome fosse Mariano ou Josué.

 

* menções à letra da canção El bulevar de los sueños rotos, de Joaquín Sabina, compositor espanhol

 




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15 de fevereiro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos companhia, solidão, vinho

               
              
            
                

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