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22 de maio de 2018

A sombra do meu avô

Do meu avô herdei sua sombra e a expressão feladaputa. Ele era um mágico espetacular, com dom e graça para divertir quem estivesse a seu lado. E tinha poderes. Os cães raivosos não o mordiam e, se algum chegasse perto, ele logo soltava um feladaputa e o bicho saía correndo. Quando íamos ao colégio, ao entrar na plataforma do metrô ele erguia o braço e o trem parava. Para atravessar uma avenida, ele ficava de costas para o semáforo, se concentrava e mexia as mãos, e num minuto a luz vermelha se apagava e acendia a verde. Pelas tardes, depois do almoço, ele piscava o olho pra mim, dizia baixinho feladaputa e deixava de respirar por meia hora, e eu aproveitava para ver desenho animado na televisão, até que ele recuperasse a respiração. No dia em que fomos ao cemitério, percebi que ao entrar na capela sua sombra desaparecia. Ele me disse que isso não era por causa de seus poderes sobrenaturais, e sim pelo sol, que lá não entrava. Disse também que, quando fosse embora para fazer companhia para a vovó, me deixaria sua sombra como recordação. Meu avô se foi e eu compreendi, depois de muitos anos, que parar o metrô, mudar a cor do semáforo e deixar de respirar eram somente brincadeiras que ele fazia pra me divertir, mas não sei como explicar, quando me perguntam, por que tenho duas sombras quando caminho debaixo do sol. Só pode ser coisa do feladaputa.

 




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22 de maio de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos avô, mágico, poderes, sombra

               
              
            
                

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