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24 de setembro de 2018

Súplica

Tarde da noite a luz acabou. A escuridão e o calor caíram sobre as pessoas como uma lona pesada. Alguém canta, é uma mulher. Não é mais que um murmúrio, um cantarolar distraído, alguém querendo apenas testar a voz, a garganta, a língua. Uma voz de homem, grossa, grave e afinada surge, encobrindo o som tímido da mulher.

Aço frio de um punhal foi seu adeus para mim / não crendo na verdade, implorei, pedi / as súplicas morreram sem eco, em vão / batendo nas paredes frias do apartamento (*)

 Há pessoas nas janelas, nas varandas, nos balcões. Tomam a brisa no rosto, ouvem a canção, se abanam — o que se pode fazer quando não há luz e o calor é insuportável? Uma voz se soma à do homem, e logo muitas outras se fazem ouvir, velhas, jovens, masculinas e femininas. Toda a vizinhança faz coro.

Esperança, morreste muito cedo / saudade, cedo demais chegaste / uma, quando parte / a outra sempre chega / chorar, já lágrimas não tenho (*)

 Sentado na varanda de seu apartamento, com um copo de uísque na mão, está o homem de voz grossa, grave e afinada que começou a cantar. É um homem que vive sozinho, um pouco velho, muito triste, quase cego.

Ele costuma cantar todas as noites, mas só nesta, em que não havia luz, houve coro.

 

(*) Trechos da canção “Súplica”, de Deo / J. Marcilio / O. Gabus Mendes

 




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24 de setembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos boa noite, coro, luz, voz

               
              
            
                

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