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poema

Mantra

Eu não saio de casa — me acostumei. Canto mantras, vejo a paisagem pela janela, entardeço com cheiro de comida, anoiteço na frente da TV, me conformo.   Pouco a pouco reviso todos os cantos da minha vida. Não me acovardo, não deixo nada intocado, tiro toda a poeira, jogo fora o lixo, mudo as […]

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O grito que fugiu da boca do menino

O menino abriu a boca e um grito fugiu, e as palavras que vieram em seguida caíram no chão feito andorinhas feridas em pleno voo. Agonizaram, as palavras. Confundidas e órfãs, as letras das palavras.   Esta noite choverá e pode ser que a água arraste para o rio todas as letras que saíram da […]

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Mistura

Jurandir ingere dinamite, pólvora e gasolina, pula várias vezes para agitar bem a mistura e no final traga um palito de fósforo aceso.   That’s all, folks!  

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Duas vozes

Uma tem medo, a outra se faz forte. Uma quer mudar tudo, a outra se conforma. Uma olha em volta e se espanta, a outra obscurece o horizonte. Uma quer ir adiante, a outra estanca na saudade. Uma adoece, a outra grita pela cura. Uma quer calar a outra, a outra se encolhe. Uma vence […]

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Perguntas

Que serventia tem o instrumento se as doze cordas foram cortadas e dele nunca mais sairá uma nota?   Não engalanem a cidade porque o feriado é falso. Que calendário está na moda hoje? E amanhã?   Qual o motivo de se guardar lugar entre os lugares, se à mesa os minutos passam e o […]

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No lado certo

Viajo no tempo cada vez mais sozinho. Para trás ficaram as mil histórias de mim. De todas elas me exilei e já não importam. Estou anistiado da minha própria vida. Não tenho pátria, bússola, sonhos ou carrego alguma culpa ou esperança, mas não estou triste. Consciência leve é boa companhia para percorrer o caminho que […]

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Lá ou cá

Meu anjo da guarda, bebendo café na cozinha, me diz que algo não anda bem. Tomo um copo d’água e um comprimido para dormir e rumo ao calvário de minha cama fria, perguntando-me baixinho se o mal está no céu, onde ele mora   — lá, naquele lugar inatingível, onde dizem que tudo é bom, […]

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O que não era antes

A luz de hoje não é a mesma luz de ontem: o dia sabe estrear uma claridade nova a cada amanhecer. Não respiramos ontem o ar de hoje, tampouco será o mesmo ar amanhã ou depois de amanhã: o vento será outro, a brisa será distinta, nada se repetirá, como a água do rio que […]

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A fatura

Celeste enveredou pela rua que dava na Porta do Triunfo. Hoje anda com o nariz empinado.   Reginaldo, com passo firme, cruzou a Praça do Desengano — e se arrependeu amargamente.   Maria foi na direção da igreja, primeira à direita. Tornou-se repositório de preconceitos e maledicências.   Henrique, ávido por conhecer o mundo, não […]

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Não ser não dói

Este poeta não falou sobre os mistérios do futuro, este poeta não cantou o espetáculo da natureza nem cantou o amor.   Este poeta falou das catástrofes e suas dores, este poeta procurou ser justo, este poeta denunciou ruínas, mas mostrou-se incapaz de reconstruí-las.   Este poeta não se disse visionário, este poeta foi mais […]

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Vídeo do poema “O fígado de David Bowie”

O fígado de David Bowie [poema de Mário Baggio] Videopoema

O fígado de David Bowie - poema de Mário Baggio - VideopoemaBlog do autor: http://homemdepalavra.com.br/-----------------Cine BookProdução de Book Trailer e Videopoemahttps://cinebook.com.br/#cinebook#videopoema#poesia#literatura#davidbowie

Posted by Cine Book on Friday, May 15, 2020

O fígado de David Bowie [poema de Mário Baggio] Videopoema O fígado de David Bowie – poema de Mário Baggio – VideopoemaBlog do autor: http://homemdepalavra.com.br/—————–Cine BookProdução de Book Trailer e Videopoemahttps://cinebook.com.br/#cinebook#videopoema#poesia#literatura#davidbowie Posted by Cine Book on Friday, May 15, 2020

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Juramentos

Todos sabem o que se diz desde tempos imemoriais: — nunca deixem de cumprir o que foi jurado diante de Deus.   O resto é vão.   Não jurem pelo céu, esse elemento desacreditado, cheio de lixo sideral e poluição, nem pela terra encharcada de veneno alimentar, onde meninos com mochila escolar são abatidos a […]

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Pontual

Aprendi desde cedo a não ser pontual. Cheguei tarde a todos os acontecimentos importantes da minha vida.   Mas todos eles, sem exceção, me esperaram pontualmente.  

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Delicadeza

Não há nada mais delicado do que o cego que, ao conversar com alguém que enxerga, nunca se esquece de falar “olhe”, “veja”…  

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Cavalos

O vento sopra e avisa: um dia todos os cavalos do mundo estarão reunidos nalgum lugar desta Terra.   Virão de todas as partes e regiões, dos antigos sítios onde não para de chover, dos cantos mais distantes onde nunca amanhece, dos santuários ignorados pela humanidade, onde juram que já não existem mais cavalos (os […]

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Drummond

Tinha uma pedra no meio do caminho. Ele se abaixou e a pegou. Pôs no cachimbo. Acendeu. Fumou. Esse dia ficou impresso para sempre na vida de suas retinas dilatadas, tão vermelhas, tão fatigadas!  

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Desterro

Morar em algum lugar, num sítio determinado, não é o mesmo que viver.   De um peregrino, de um exilado, de um desterrado de seu próprio chão diz-se e ninguém contradiz: “Nos últimos anos morou em tal ou qual cidade.”   Bem diferente é dizer “Nos últimos anos viveu em tal ou qual cidade”, porque […]

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Os patíbulos

Os patíbulos há tempos caíram de velhos, de podridão e cupim, por seu peso e sob o peso da lei da gravidade, essa grave e incontestável lei que o universo engendrou,   e que um dia desses será revogada pela ignorância e porque “eu quero assim”.   Então, como um milagre às avessas, voltarão a […]

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A Rosa e a Palavra

Às vezes, quando a vida se torna bruta e a delicadeza desaparece, alguém pede por uma Rosa e ela surge, plena de cor e fogo e alma no meio do céu. Em cada uma das pétalas há um coração pulsando, em cada pulso, um consolo. É quando a Rosa se torna Palavra e a Palavra […]

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Parafusos

Pelo que ouço por aí, está tudo tão bonito que devo estar cego. Falta-me um parafuso, será? É possível. Reflito: muitas pessoas que conheço não são como eu, eu tampouco sou como elas. Tenho defeitos imperdoáveis: não minto nem falseio. (É, parece mesmo que me falta algo). Pois que fique estabelecido assim: não quero me […]

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Toda dor tem que ter alívio

Que a solidão venha e se acomode, mas não se refestele — refestelar-se é para gente vulgar — e me instrua: um tiro ou uma palavra para matar o que parece ser uma nuvem grossa e opressora ou só um sonho perverso. Aperto o gatilho ou escrevo e mato, porque é uma questão de escolha […]

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Casa aberta

Deixe-as abertas, dizia minha mãe, sempre abertas. Não vai acontecer nada. Não há nada que roubar. Abertas para presentear a todos nossa alegria a mancheias. Fartura. As garrafas de afeto nunca vazias, prontas para o oferecimento e o consumo. Os copos ali na mesa, que se sirvam todos sem modéstia. Pleno o coração de bondade […]

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A procissão da negra santa

Mas como pode ser essa Nossa Senhora tão pequena, tão negra, tão africana, parecendo que não foi acabada direito?   Marinês vê a serpente da procissão, o andor da santa bamboleia nos ombros dos quatro coroinhas pouco mais que meninos, aquela santa tão pretinha, chamando para o Salve Rainha, poderia ser a mãe de um […]

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Humano

Este silêncio de agora é digno de uma catedral. Uma catedral de sonhos e de tempos passados, de adeuses e solidão. Uma catedral de infinitos poemas e terríveis enganos. Dessa catedral invisível eu sou o bispo e o beato, o que faz a faxina, o que pega o dinheiro, sou o crucificado e a Pietá, […]

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Sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar? (*)

ASAS Para alguém nascer com asas, o forjador precisa manejar muito bem a lâmina, cortar a carne rente e arremessar o corpo no espaço, com a certeza de que quem concede o voo não é o céu, a altura — é a caída, o abismo.   VERMELHO Na cidade vazia tudo é branco. Branco sobre […]

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A memória é um jogo que chega ao fim

O nome do autor é o primeiro que se esfuma, seguido docemente pelo título, a trama, o desfecho impactante e, afinal, o livro inteiro.   O livro inteiro se converte, de golpe, naquele que nunca foi lido, naquele do qual nunca se ouviu falar, como se, uma a uma, as lembranças da leitura, tão acalentadas […]

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Por quem os sinos dobram?

Outra noite em que os sinos dobraram pelo que não se disse. O silêncio é um carrilhão gelado.   As palavras nunca são só palavras: importam porque definem o contorno do que podemos ver. Elas verbalizam, com seus limites, o mundo que o nosso olhar edifica. Dói não poder dizer tanto quanto o que não […]

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