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poema

Barco

Nem cais, nem porto, nem vela. Não sei, não sei. Não sei explicar, com palavras deste mundo, que partiu de mim um barco levando-me.  

17 de setembro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia barco, palavras, poema, poesia, poeta

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A cidade

Pouco importa o que façamos, pensemos decidamos: a cidade não tem memória e não nos guarda.   Pouco importa o quanto falemos, contribuamos, melhoremos: a cidade definha, quase morre, e só permanece em pé para depois contar, em silêncio, a própria história aos novos habitantes.  

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Sobre guerras. Qualquer guerra

#1 A guerra terminou. Os soldados recolheram suas armas e demais pertences e voltaram para casa. Os sargentos deram as últimas ordens e voltaram para casa. Os capitães guardaram suas medalhas e voltaram para casa. Os generais pensaram em criar outra guerra para se sentirem em casa.   #2 Quando acabou a reunião entre os […]

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Mundo novo

Olho fotografias, ressuscito lembranças adormecidas, acaricio a tatuagem no lado esquerdo do meu peito (meu idioma, meu vocabulário, minha rainha-palavra) e digo adeus ao mundo que conheci e amei.   Miro o desterro, cruzo a fronteira com o coração flechado e exangue, fecho os olhos, puxo o Sossego para perto de mim (Sossego é o […]

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Semelhanças

Responder “pelo menos você tem emprego” a quem se queixa do trabalho é o mesmo que dizer “pelo menos você tem marido” a uma mulher que apanha do companheiro.  

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Sabor

O nó na garganta é o mar a ponto de transbordar pelos olhos, inundar a face, romper diques, destroçar os cais, alcançar a boca. É assim que se aprende quão salgado é o sabor da lágrima.  

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O beijo ansiado

Beber como quem acumulou toda a sede dos desertos de onde regressou. Saciar com profunda sucção o desejo de cem gargantas abrasadas. Engolir tudo, sem opção nem remorso. Abrir os olhos, lamber a última gota de quem emprestou sua boca e morrer de sede outra vez.  

3 de setembro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia beijo, boca, desertos, poema, poesia, poeta, sede

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Pedra

É de ser pedra que se trata aqui. Ser pedra para não ser reflexo de nada. Rasgar a água, escutar o grito molhado de quem sente a carne dilacerada e tocar o fundo sem nunca perder a forma. Ser eterna. Ser pedra para poder ser.  

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A mãe e o filho da mãe

Estancaremos aqui, a esperar que nada de mal nos ocorra, que ninguém nos encontre, que o mal não nos atinja. Beberemos o tempo de um gole só e calaremos nossa voz, a tua e a minha. Estamos sozinhos.  

3 de setembro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia filho, mãe, mal, poema, poesia, poeta, tempo

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Os pássaros

As crianças entraram correndo e abriram todas as gaiolas. O pai e a mãe chegaram e encontraram os corpos mortos. Enlouqueceram. Os pássaros nunca mais voltaram.  

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Basta!

Pensam que são felizes os seres normais, os que não tiveram uma mãe louca, um pai bêbado, um filho delinquente, um irmão comunista, uma casa em nenhum lugar, uma doença desconhecida, que não foram chamuscados por um amor incendiário, que adotaram dezessete tipos de sorriso e doze modalidades de olhares piedosos, os colecionadores de sapatos, […]

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Um abraço

Daqui do alto eu vejo o que você vê, sinto o que você sente, choro o que você chora. Vamos abraçar aquela gente lá embaixo? Abrirei meus braços como os seus, que um abraço não se nega a quem soluça de saudade, a quem está com os joelhos macerados de tanto rezar em vão.  

25 de agosto de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia abraçar, abraço, poema, poesia, poeta

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Para uma menina

Nunca a noite foi tão vazia, nem tão confiável o nada, nem a cama tão deserta, nem tão mudos os retratos. Nunca   tão longos os corredores, nem o silêncio tão barulhento, nem as vozes tão estridentes, nem tão vã toda palavra. Nunca   tanto espanto nestes olhos, nem tão sem linhas estas mãos, nem […]

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Azul

Quando me deixo levar pela saudade, minha memória, como um relógio de sol, registra somente as horas luminosas da infância, que aparecem em minhas lembranças mais como espaço do que como tempo. É um todo azul, ensolarado e acolhedor, em que as coisas não passam: estão ali desde sempre e para sempre.  

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A cura

É à noite, quando me espanto e o ar estanca, que ouso pedir alguma coisa, eu, que nunca pedi nada:   uma mulher cantando nas Antilhas, (*) a voz das negras americanas dos hinos e dos blues, (*) os acordes iniciais da Bachiana nº 5 na respiração de Maria Lúcia Godoy bastariam para mim, para […]

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A palavra preciosa

Deu-se o caso daquela palavra preciosa, preciosíssima, que engasgou, tossiu e cuspiu uma vogal. Desde então a palavra preciosa converteu-se numa palavra precisa, muito mais do que precisa, precisíssima.  

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Cronologia

Com a primeira onda que quebrou em nossas praias chegaram os conquistadores. Cravaram as botas na areia e olharam em volta: imensidão. Abriram os braços, fincaram bandeira, cuspiram no chão.   Os colonizadores aportaram com a segunda onda. Ofereceram presentes de metal, espelhos sem brilho, enfeites feios, panos para nos tapar: selvagens todos nós.   […]

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O que importa

Nascer importa. Aprender importa. Arriscar-se importa. Voar, isso sim, importa. Amar, desejar, lutar — tudo isso importa. E duvidar, conhecer, desconhecer, resolver, seguir, retroceder — importam. Morrer e voltar ao início e renascer: importam, não importa quantas vezes, não importa com que forças, não importa se todos os dias. Importa que haja cinzas e alguma […]

6 de agosto de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia arder, cinzas, importa, poema, poesia, poeta

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Perguntei ao rio

rio, estás seguro de que queres mesmo chegar ao mar? (argumentei) tens muito a perder: tuas tatuagens de luz os redemoinhos a força da tua correnteza o barro do teu leito (tua cama, teu repouso) a companhia silenciosa das margens a sombra dos salgueiros os peixes habituais as aves de pernas altas tua cantilena ancestral […]

4 de agosto de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia mar, poema, poesia, poeta, rio

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Camiseta de dez reais

Nas comissuras de uma camiseta de dez reais há dois pobres: o que cose e o que compra.   Cada um numa parte do mundo.   No meio está aquele sujeito que junta as duas pobrezas e enriquece.  

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Valor

Ao diamante belo reluzente cobiçado valorado   prefiro o carvão.   Diamantes não pegam fogo.  

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Réquiem em Fá Maior

Café, leite e açúcar: nem sempre a vida me falta. Longe, perto, antes ou depois, em inglês, português ou esperanto   ou qualquer idioma que me supra de palavras alentadoras e um entardecer com cheiro de comida: sei que sobreviverei.   Sempre estarão aí, ao meu alcance, garoa, guarda-chuva, pés, chão e caminho, ainda que, […]

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Mais simples

Não peço (nunca pedi) nada especial. Acabou o detergente da cozinha? Ter um frasco novo na despensa me faz sorrir.   O estômago rugiu no passado e hoje, espírito de vingança, a farinha desliza entre meus dedos e gera o pão. Alimento ancestral que acalma, como a polenta, a sopa, o café e o chocolate. […]

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Dois estranhos

Na rua, ao acaso, um desconhecido aponta a câmera para meu rosto, para meus olhos, play. Ele levará gravados em seu aparelho o meu olhar, a minha surpresa e o meu espanto, mas continuaremos a ser dois completos estranhos que um dia se cruzaram na rua. Uma imagem parada e um instante plasmado, feitos de […]

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Desta vida, desta arte

Talvez amanhã exploda um ônibus ou não haja o que comer ou essa dor que nos rebenta a alma se faça insuportável.   Mas hoje, senhoras e cavalheiros, burlamos o inimigo e devemos comemorar um dia a mais de resistência. É uma vitória. Descansem, pois. Escondam muito bem os monstros na gaveta ou atrás da […]

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Mantra

Eu não saio de casa — me acostumei. Canto mantras, vejo a paisagem pela janela, entardeço com cheiro de comida, anoiteço na frente da TV, me conformo.   Pouco a pouco reviso todos os cantos da minha vida. Não me acovardo, não deixo nada intocado, tiro toda a poeira, jogo fora o lixo, mudo as […]

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O grito que fugiu da boca do menino

O menino abriu a boca e um grito fugiu, e as palavras que vieram em seguida caíram no chão feito andorinhas feridas em pleno voo. Agonizaram, as palavras. Confundidas e órfãs, as letras das palavras.   Esta noite choverá e pode ser que a água arraste para o rio todas as letras que saíram da […]

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