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poesia

Desterro

Morar em algum lugar, num sítio determinado, não é o mesmo que viver.   De um peregrino, de um exilado, de um desterrado de seu próprio chão diz-se e ninguém contradiz: “Nos últimos anos morou em tal ou qual cidade.”   Bem diferente é dizer “Nos últimos anos viveu em tal ou qual cidade”, porque […]

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Os patíbulos

Os patíbulos há tempos caíram de velhos, de podridão e cupim, por seu peso e sob o peso da lei da gravidade, essa grave e incontestável lei que o universo engendrou,   e que um dia desses será revogada pela ignorância e porque “eu quero assim”.   Então, como um milagre às avessas, voltarão a […]

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A Rosa e a Palavra

Às vezes, quando a vida se torna bruta e a delicadeza desaparece, alguém pede por uma Rosa e ela surge, plena de cor e fogo e alma no meio do céu. Em cada uma das pétalas há um coração pulsando, em cada pulso, um consolo. É quando a Rosa se torna Palavra e a Palavra […]

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Parafusos

Pelo que ouço por aí, está tudo tão bonito que devo estar cego. Falta-me um parafuso, será? É possível. Reflito: muitas pessoas que conheço não são como eu, eu tampouco sou como elas. Tenho defeitos imperdoáveis: não minto nem falseio. (É, parece mesmo que me falta algo). Pois que fique estabelecido assim: não quero me […]

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Toda dor tem que ter alívio

Que a solidão venha e se acomode, mas não se refestele — refestelar-se é para gente vulgar — e me instrua: um tiro ou uma palavra para matar o que parece ser uma nuvem grossa e opressora ou só um sonho perverso. Aperto o gatilho ou escrevo e mato, porque é uma questão de escolha […]

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Casa aberta

Deixe-as abertas, dizia minha mãe, sempre abertas. Não vai acontecer nada. Não há nada que roubar. Abertas para presentear a todos nossa alegria a mancheias. Fartura. As garrafas de afeto nunca vazias, prontas para o oferecimento e o consumo. Os copos ali na mesa, que se sirvam todos sem modéstia. Pleno o coração de bondade […]

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A procissão da negra santa

Mas como pode ser essa Nossa Senhora tão pequena, tão negra, tão africana, parecendo que não foi acabada direito?   Marinês vê a serpente da procissão, o andor da santa bamboleia nos ombros dos quatro coroinhas pouco mais que meninos, aquela santa tão pretinha, chamando para o Salve Rainha, poderia ser a mãe de um […]

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Humano

Este silêncio de agora é digno de uma catedral. Uma catedral de sonhos e de tempos passados, de adeuses e solidão. Uma catedral de infinitos poemas e terríveis enganos. Dessa catedral invisível eu sou o bispo e o beato, o que faz a faxina, o que pega o dinheiro, sou o crucificado e a Pietá, […]

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Sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar? (*)

ASAS Para alguém nascer com asas, o forjador precisa manejar muito bem a lâmina, cortar a carne rente e arremessar o corpo no espaço, com a certeza de que quem concede o voo não é o céu, a altura — é a caída, o abismo.   VERMELHO Na cidade vazia tudo é branco. Branco sobre […]

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A memória é um jogo que chega ao fim

O nome do autor é o primeiro que se esfuma, seguido docemente pelo título, a trama, o desfecho impactante e, afinal, o livro inteiro.   O livro inteiro se converte, de golpe, naquele que nunca foi lido, naquele do qual nunca se ouviu falar, como se, uma a uma, as lembranças da leitura, tão acalentadas […]

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Por quem os sinos dobram?

Outra noite em que os sinos dobraram pelo que não se disse. O silêncio é um carrilhão gelado.   As palavras nunca são só palavras: importam porque definem o contorno do que podemos ver. Elas verbalizam, com seus limites, o mundo que o nosso olhar edifica. Dói não poder dizer tanto quanto o que não […]

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O violinista

Que contabilizem os mortos, e façam o trabalho direito. Um a um, conta certa, erro zero, que não falte nenhum.   Assegurem-se de que estão bem mortos e enterrados, cada qual em sua vala particular, identificados, que não sejam confundidos ou trocados.   Necessário é vigiar esse violinista morto que jaz perto do jovem Werther […]

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Endividado

Devo a muita gente, estou endividado, não tenho como pagar. Cobradores vêm à minha casa, verificam meus pertences, carregam coisas que julgam ter valor para quitar minha dívida. Agora meu espaço está vazio. O último cobrador veio hoje e me levou, a mim, que era o único que eu tinha. Agora já não tenho mais […]

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À mesa os iguais

A mesa está posta, os comensais se reúnem, consultam o relógio, pacientes, impacientes. Estão com fome.   A senhora da casa observa o arranjo, baixelas sem manjar, brancas porcelanas intocadas, copos vazios, talheres polidos, o linho ainda imaculado da toalha, os comensais ao redor, pacientes, impacientes,   e pede que encham os copos, fino vinho […]

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Embocadura

Ontem à noite dei de lembrar. Lembrei-me de uma canção e dei de cantar. Era uma canção antiga, canção de ninar dos meus tempos de menino.   Quando terminei, doeu-me a mandíbula, porque tive que mexer a boca de uma forma nova para emitir aquelas palavras. Eram velhas as palavras da canção, palavras que não […]

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Oração ao sal

Sal marinho redentor, se é verdade que tudo purificas e tens o poder de fechar feridas e acalmar as dores,   faz com que a maré altíssima represada nos meus olhos lave o mal inteiro desta vida nossa, regue o meu país e o transforme num lugar decente e bom.   Extirpa desta terra toda […]

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Casa onde menino cresceu

Casa onde menino cresceu as flores não cresciam. Um anjo de mãos negras regava os vasos com ácido amoníaco e outros produtos de limpeza. As flores choravam em silêncio e morriam.   Pai não gostava de flores nem de cores nem de quando explodia o escândalo da primavera — o preto e o branco bastavam […]

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Enquanto viverem

Guarda-chuvas inertes fechados nos assentos dos ônibus que passam perto dos hospitais.   Os familiares descem e os abrem, protegendo-se da chuva.   Caminham na direção de uma ferida, uma chaga, uma úlcera, da qual se lembrarão enquanto viverem.  

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A outra teta da Pietá

Uma teta é uma teta. Uma coisa é a teta que amamenta, outra, a teta ao sol. A teta que amamenta pode estar ao ar livre, a que goza o calor, não. Assim dizem.   A menina de dezesseis anos não sabe disso. Alimenta o filho e se bronzeia, a grama do parque lembra a […]

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Escolher

Agora sei que havia um rio. Lembro-me do gelado da água, da escuridão e do abandono. Certamente havia um rio.   Levanto os olhos e encontro minha cara no espelho líquido, vejo a face que nem sempre reconheço: os tempos eram outros, foram outros, são outros, serão outros.   Há um medo aqui, um tanto […]

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O poema e a poesia

A poesia é o mundo em estado de arte. Com ela tudo se transforma, até a solidão (essa indesejada e necessária companheira) e seu significado, embora a poesia não construa suficientes paraísos nos quais a solidão possa entrar e deles sair mais consolada, mais ordenada, menos dolorida.   O poema: deve-se colhê-lo com as mãos […]

6 de fevereiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia misericórdia, poema, poesia

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De mãos dadas

Poesia é um homem desempregado que leva seu filho à escola. A mão que protege e a mão que pede a proteção se unem e comunicam silêncios. O menino não fala dos livros que lhe faltam, o homem não fala do emprego que não conseguiu: há momentos em que a poesia sangra na garganta e […]

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Poemeus

A LAVADEIRA Vi a lavadeira na beira do rio seus dedos calejados sua espinha arqueada suas pernas abertas seu olhar concentrado o sol a pino na cabeça   A lavadeira me viu E me disse apontando a roupa, o sabão, o rio isso é só outra maneira de ver as coisas mais limpas, mais puras, […]

28 de fevereiro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia barata, lavadeira, mar, nós, poesia, poeta, rio

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A noite em que a lua rachou minha cabeça

A lua caiu em cima de mim e rachou a minha cabeça. Não é a primeira e certamente não será a última vez que isso aconteça, mas agora foi diferente e inusitado. Um rombo na cabeça, provocado por um corpo celeste que decide desabar sobre uma pessoa — isso não é coisa pouca. Dói. E […]

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A cerca

Minha cidade tem várias ruas destinadas unicamente a pedestres. São ruas largas, que se prestam ao passeio tranquilo dos transeuntes, que gostam de fazer suas compras ou tomar café sem o incômodo das buzinas ou a confusão do tráfego de automóveis. Essas ruas costumam ser comparadas a oásis no caos urbano das metrópoles. Todos amam […]

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Lurdinha

Quando Lurdinha nasceu, exclamaram Coitada! Com o passar dos meses, acrescentaram ao Coitada! a frase Olhe a cabecinha dela, que pequenininha! Lurdinha cresceu com sua pequena cabeça e foi feliz, mesmo que não entendesse tudo o que a mãe lhe dizia. Chegou à avançada idade de seis anos sem assimilar muita coisa, embora compreendesse o […]

10 de fevereiro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos coitada, Lurdinha, poesia

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