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poeta

Azul

Quando me deixo levar pela saudade, minha memória, como um relógio de sol, registra somente as horas luminosas da infância, que aparecem em minhas lembranças mais como espaço do que como tempo. É um todo azul, ensolarado e acolhedor, em que as coisas não passam: estão ali desde sempre e para sempre.  

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A cura

É à noite, quando me espanto e o ar estanca, que ouso pedir alguma coisa, eu, que nunca pedi nada:   uma mulher cantando nas Antilhas, (*) a voz das negras americanas dos hinos e dos blues, (*) os acordes iniciais da Bachiana nº 5 na respiração de Maria Lúcia Godoy bastariam para mim, para […]

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A palavra preciosa

Deu-se o caso daquela palavra preciosa, preciosíssima, que engasgou, tossiu e cuspiu uma vogal. Desde então a palavra preciosa converteu-se numa palavra precisa, muito mais do que precisa, precisíssima.  

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Cronologia

Com a primeira onda que quebrou em nossas praias chegaram os conquistadores. Cravaram as botas na areia e olharam em volta: imensidão. Abriram os braços, fincaram bandeira, cuspiram no chão.   Os colonizadores aportaram com a segunda onda. Ofereceram presentes de metal, espelhos sem brilho, enfeites feios, panos para nos tapar: selvagens todos nós.   […]

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O que importa

Nascer importa. Aprender importa. Arriscar-se importa. Voar, isso sim, importa. Amar, desejar, lutar — tudo isso importa. E duvidar, conhecer, desconhecer, resolver, seguir, retroceder — importam. Morrer e voltar ao início e renascer: importam, não importa quantas vezes, não importa com que forças, não importa se todos os dias. Importa que haja cinzas e alguma […]

6 de agosto de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia arder, cinzas, importa, poema, poesia, poeta

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Perguntei ao rio

rio, estás seguro de que queres mesmo chegar ao mar? (argumentei) tens muito a perder: tuas tatuagens de luz os redemoinhos a força da tua correnteza o barro do teu leito (tua cama, teu repouso) a companhia silenciosa das margens a sombra dos salgueiros os peixes habituais as aves de pernas altas tua cantilena ancestral […]

4 de agosto de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia mar, poema, poesia, poeta, rio

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Camiseta de dez reais

Nas comissuras de uma camiseta de dez reais há dois pobres: o que cose e o que compra.   Cada um numa parte do mundo.   No meio está aquele sujeito que junta as duas pobrezas e enriquece.  

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Valor

Ao diamante belo reluzente cobiçado valorado   prefiro o carvão.   Diamantes não pegam fogo.  

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Réquiem em Fá Maior

Café, leite e açúcar: nem sempre a vida me falta. Longe, perto, antes ou depois, em inglês, português ou esperanto   ou qualquer idioma que me supra de palavras alentadoras e um entardecer com cheiro de comida: sei que sobreviverei.   Sempre estarão aí, ao meu alcance, garoa, guarda-chuva, pés, chão e caminho, ainda que, […]

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Mais simples

Não peço (nunca pedi) nada especial. Acabou o detergente da cozinha? Ter um frasco novo na despensa me faz sorrir.   O estômago rugiu no passado e hoje, espírito de vingança, a farinha desliza entre meus dedos e gera o pão. Alimento ancestral que acalma, como a polenta, a sopa, o café e o chocolate. […]

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Dois estranhos

Na rua, ao acaso, um desconhecido aponta a câmera para meu rosto, para meus olhos, play. Ele levará gravados em seu aparelho o meu olhar, a minha surpresa e o meu espanto, mas continuaremos a ser dois completos estranhos que um dia se cruzaram na rua. Uma imagem parada e um instante plasmado, feitos de […]

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Desta vida, desta arte

Talvez amanhã exploda um ônibus ou não haja o que comer ou essa dor que nos rebenta a alma se faça insuportável.   Mas hoje, senhoras e cavalheiros, burlamos o inimigo e devemos comemorar um dia a mais de resistência. É uma vitória. Descansem, pois. Escondam muito bem os monstros na gaveta ou atrás da […]

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Mantra

Eu não saio de casa — me acostumei. Canto mantras, vejo a paisagem pela janela, entardeço com cheiro de comida, anoiteço na frente da TV, me conformo.   Pouco a pouco reviso todos os cantos da minha vida. Não me acovardo, não deixo nada intocado, tiro toda a poeira, jogo fora o lixo, mudo as […]

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O grito que fugiu da boca do menino

O menino abriu a boca e um grito fugiu, e as palavras que vieram em seguida caíram no chão feito andorinhas feridas em pleno voo. Agonizaram, as palavras. Confundidas e órfãs, as letras das palavras.   Esta noite choverá e pode ser que a água arraste para o rio todas as letras que saíram da […]

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Mistura

Jurandir ingere dinamite, pólvora e gasolina, pula várias vezes para agitar bem a mistura e no final traga um palito de fósforo aceso.   That’s all, folks!  

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Duas vozes

Uma tem medo, a outra se faz forte. Uma quer mudar tudo, a outra se conforma. Uma olha em volta e se espanta, a outra obscurece o horizonte. Uma quer ir adiante, a outra estanca na saudade. Uma adoece, a outra grita pela cura. Uma quer calar a outra, a outra se encolhe. Uma vence […]

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Perguntas

Que serventia tem o instrumento se as doze cordas foram cortadas e dele nunca mais sairá uma nota?   Não engalanem a cidade porque o feriado é falso. Que calendário está na moda hoje? E amanhã?   Qual o motivo de se guardar lugar entre os lugares, se à mesa os minutos passam e o […]

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No lado certo

Viajo no tempo cada vez mais sozinho. Para trás ficaram as mil histórias de mim. De todas elas me exilei e já não importam. Estou anistiado da minha própria vida. Não tenho pátria, bússola, sonhos ou carrego alguma culpa ou esperança, mas não estou triste. Consciência leve é boa companhia para percorrer o caminho que […]

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Lá ou cá

Meu anjo da guarda, bebendo café na cozinha, me diz que algo não anda bem. Tomo um copo d’água e um comprimido para dormir e rumo ao calvário de minha cama fria, perguntando-me baixinho se o mal está no céu, onde ele mora   — lá, naquele lugar inatingível, onde dizem que tudo é bom, […]

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O que não era antes

A luz de hoje não é a mesma luz de ontem: o dia sabe estrear uma claridade nova a cada amanhecer. Não respiramos ontem o ar de hoje, tampouco será o mesmo ar amanhã ou depois de amanhã: o vento será outro, a brisa será distinta, nada se repetirá, como a água do rio que […]

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A fatura

Celeste enveredou pela rua que dava na Porta do Triunfo. Hoje anda com o nariz empinado.   Reginaldo, com passo firme, cruzou a Praça do Desengano — e se arrependeu amargamente.   Maria foi na direção da igreja, primeira à direita. Tornou-se repositório de preconceitos e maledicências.   Henrique, ávido por conhecer o mundo, não […]

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Não ser não dói

Este poeta não falou sobre os mistérios do futuro, este poeta não cantou o espetáculo da natureza nem cantou o amor.   Este poeta falou das catástrofes e suas dores, este poeta procurou ser justo, este poeta denunciou ruínas, mas mostrou-se incapaz de reconstruí-las.   Este poeta não se disse visionário, este poeta foi mais […]

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Vídeo do poema “O fígado de David Bowie”

O fígado de David Bowie [poema de Mário Baggio] Videopoema

O fígado de David Bowie - poema de Mário Baggio - VideopoemaBlog do autor: http://homemdepalavra.com.br/-----------------Cine BookProdução de Book Trailer e Videopoemahttps://cinebook.com.br/#cinebook#videopoema#poesia#literatura#davidbowie

Posted by Cine Book on Friday, May 15, 2020

O fígado de David Bowie [poema de Mário Baggio] Videopoema O fígado de David Bowie – poema de Mário Baggio – VideopoemaBlog do autor: http://homemdepalavra.com.br/—————–Cine BookProdução de Book Trailer e Videopoemahttps://cinebook.com.br/#cinebook#videopoema#poesia#literatura#davidbowie Posted by Cine Book on Friday, May 15, 2020

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Juramentos

Todos sabem o que se diz desde tempos imemoriais: — nunca deixem de cumprir o que foi jurado diante de Deus.   O resto é vão.   Não jurem pelo céu, esse elemento desacreditado, cheio de lixo sideral e poluição, nem pela terra encharcada de veneno alimentar, onde meninos com mochila escolar são abatidos a […]

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Pontual

Aprendi desde cedo a não ser pontual. Cheguei tarde a todos os acontecimentos importantes da minha vida.   Mas todos eles, sem exceção, me esperaram pontualmente.  

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Delicadeza

Não há nada mais delicado do que o cego que, ao conversar com alguém que enxerga, nunca se esquece de falar “olhe”, “veja”…  

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Cavalos

O vento sopra e avisa: um dia todos os cavalos do mundo estarão reunidos nalgum lugar desta Terra.   Virão de todas as partes e regiões, dos antigos sítios onde não para de chover, dos cantos mais distantes onde nunca amanhece, dos santuários ignorados pela humanidade, onde juram que já não existem mais cavalos (os […]

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