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26 de julho de 2015

Tango

tangoA orquestra ainda afinava os instrumentos quando os olhos de Macário iniciaram o passeio pelo salão. Procuravam a companheira para aquele domingo. A pista de dança vazia, espelho encerado e limpo, logo estaria cheia de casais, e Macário queria estar entre eles, mesmo sem Helena. Lembrou-se de outros tempos, outros domingos: sua mão na cintura de Helena, molde perfeito; a mão dela em sua nuca, ninho; e os olhos de Helena, pousados nos seus, deleite. Helena, agora só uma lembrança.

Os olhos de Macário interromperam o passeio nuns braços, no outro lado do salão. Linha perfeita em direção ao pescoço e à cabeça, a cabeleira ruiva presa com fivela dourada. Era Clarice. Quanta tristeza havia naqueles olhos! Macário não desgrudou deles.

Olhares devidamente correspondidos, ela o encorajou. Ele foi.

– Meu nome é Macário. Dança comigo?

– Eu me chamo Clarice. Com prazer.

 

Por una cabeza, todas las locuras

Su boca que besa borra la tristeza

Calma la amargura

 

O bandoneon marca o ritmo dos corpos. Macário olha para longe e pensa em Helena. Clarice, em Augusto, o causador de sua tristeza. Dançam em silêncio. Cruzam os olhares.

– Helena…

– Augusto…

– Desculpe.

– Desculpe.

 

Por una cabeza, si ella me olvida

Qué importa perderme mil veces la vida

Para qué vivir?*

 

Entregues à música, seguem dançando em silêncio. Os quatro.

 

 *”Por una Cabeza”, tango composto por Carlos Gardel e Alfredo Le Pera




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