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9 de junho de 2015

Tecida

aranhas

Germana não era uma aranha, mas tecia. Juntava retalhos e fazia arte. Soltos, eram apenas pedaços de pano, sobras indesejadas, trapos. Nas mãos de Germana, que conduziam com habilidade a linha mágica que os unia, adquiriam nobreza. Seus dedos deslizavam por calças, saias, vestidos, colchas, blusinhas e blusões como se acariciassem a pele de um recém-nascido – delicados e cuidadosos. Deles, tão ligeiros como um passarinho, as peças brotavam reluzentes como novas, transbordando cores, desenhos, texturas, bordados. Uma fada, Germana.

Se acabasse a linha, Germana vertia uma lágrima no tecido e a magia se realizava: pespontos feitos, botões pregados, sianinhas coloridas no arremate. Trabalho pronto, tranquilo o coração de Germana.

Quando, um dia, ficou sem linha e sem lágrimas, Germana pousou as mãos sobre o peito e fechou os olhos. Foi então que todas as aranhas do mundo se uniram e, a um só tempo, teceram em seu rosto um sorriso de cetim e dois olhos de veludo azul. Seu corpo se converteu numa trama de renda tão suave quanto resistente ao toque. Germana não precisará nunca mais de linhas ou lágrimas porque é, ela própria, um delicado tecido que adorna e aquece o mundo ao redor. Uma alma encantada, Germana.

 




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9 de junho de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos aranha, tecida, tecido

               
              
            
                

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