Close

30 de julho de 2017

Tempo de ouvir

Tu sabes bem que há um tempo para todo propósito debaixo do céu. Há um tempo para ouvir. E ouvirás muitas vezes o golpe seco de um punho contra a parede. O arrastar de um móvel. Passos de alguém que não se aproxima, que não se distancia. Zumbidos dentro de uma lâmpada apagada. A água correndo dentro do encanamento do edifício em que vives. O ruído seco do estalar da madeira da janela. Uma porta que se abre, outra que se fecha.

Ouvirás isso muitas vezes. E subirás a persiana de teu quarto como se fosse a puxada de fôlego do afogado. Vais olhar pela janela e não verás nada de anormal. Vais te aproximar da parede, o ouvido colado em cada reentrância do reboco, buscando a origem dos ruídos, o ritmo dos passos no corredor, a respiração da mobília. O som dos bocejos que paira no ar. Esses barulhos, onde estão? De onde vêm?

Tu tens medo porque não há ninguém. O que ouves não é senão o mastigar do mundo, a digestão da vida. Encanamentos velhos. Azulejos quebrados. Piso escorregadio. Tens medo porque estás apenas a uma parede de onde tudo acontece, no outro lado da realidade. E estás velho. E estás alquebrado. E começas a rachar. Alguém, algum dia, te colocará numa moldura e viverás para sempre sustentado por um prego.

 




Tags:, , , ,

30 de julho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos barulhos, moldura, ouvir, prego, ruídos

               
              
            
                

Deixe um comentário