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5 de maio de 2016

O tempo e a inexorável marcha do tempo

ampulhetaHouve uma vez, num tempo que não é este, um escritor que queria escrever. Houve também um ator que desejava atuar, um cantor louco para cantar e um professor ansioso por ensinar. Jamais foram o que poderiam ter sido. Formavam um grupo de pessoas deprimidas e era deprimente vê-los.

Naquele mesmo tempo houve um pintor que os tomou como modelos e pintou os quatro juntos. A tela fez muito sucesso, foi celebrada pela crítica e ganhou notoriedade internacional. Nas entrevistas, o pintor, modesto, dizia que sua intenção fora pintar um grupo de pessoas que só pretendiam ser o que já eram e não sabiam, e por isso falharam em seu intento, nada mais. Um jornalista metido a besta lhe perguntou se não seria melhor pintar pessoas que já eram, mesmo que não tenham querido ser. O pintor o olhou, acendeu seu cachimbo, ficou em silêncio e não respondeu. Nunca mais pintou na vida.

Na época em que tudo isso acontecia, eu só tinha a ambição de viver, mas não foi possível. Mesmo morrendo de vontade de viver, eu morri sem ter vivido nada do que desejava. Agora sou um morto solitário e triste, condenado a vagar por aí feito um fantasma que busca o tempo perdido e que morre de arrependimento por ter desperdiçado tanto tempo.

Nunca tenho fome nem interesse por nada. A única coisa que me agrada é sair do meu canto para conversar com meu coveiro, o velho centenário que, segundo ele me conta, tornou-se coveiro sem saber que nunca queria ter sido coveiro. Ele só desejava ser pai, e por isso se casou e sua mulher lhe deu sete filhos. Ele já enterrou os oito e, desse modo — ele garante —, pode se considerar um homem realizado.

 




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5 de maio de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos estar, ser, tempo, vida, viver

              
            
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