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27 de maio de 2016

Tiro na nuca

tiroA prática dissimulada, silenciosa do tiro na nuca segue, como é de se supor, leis rigorosas. Seu território de ação são os ônibus do transporte público. Linha noturna. O matador deve, assim que subir no coletivo, deitar minuciosamente os olhos sobre os passageiros que ali estão e fazer sua escolha obedecendo a critérios objetivos: por exemplo, aquela mulher com roupas de segunda mão e sandália havaiana mostrando os pés roxos de frio. Essa, não há dúvida, irá até o ponto final, pois mora muito além de qualquer periferia digna desse nome. Ou então o homem maltrapilho que, cansado do dia de trabalho, vai fechar os olhos e roubar o sacolejo do ônibus como estímulo para um sono reparador. Esse também, é muito provável, irá até o fim da linha e ainda caminhará uma dezena de quadras até chegar à casa. Alvos perfeitos.

Feita a escolha, o matador deve se sentar no banco atrás da vítima e lá ficar até o derradeiro momento. Vigiá-la, namorá-la em silêncio, sentir um pouco de pena, se for o caso. Uma cadeia de casualidades tornará possível a situação de disparo, como a descida, um após o outro, dos passageiros ao longo do caminho. O ônibus quase vazio: eis o cenário ideal para a prática do tiro na nuca.

O motorista finge que nada vê, mas fica fascinado com a astúcia do matador em escolher a vítima perfeita, em adivinhar quem será o último viajante. O fatídico disparo raramente se ouve, porque as regras para executar o ato são demasiado rigorosas, e muito precisas as condições para que tudo aconteça conforme deseja o matador, e nem sempre ele alcança o estado da arte necessário para a sua prática. O cobrador que de repente sai da sonolência, o som de uma sirene de polícia nas proximidades, tudo isso acaba arrefecendo o ímpeto do assassino. A crueldade se previne.

É por esse motivo, e não por outro, que tantas vezes descemos vivos do transporte público na cidade de São Paulo.

 




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