Close

4 de maio de 2016

Todas as manhãs

mulher2Apesar de tudo, ela vai se levantar como quase todas as manhãs: às quinze para as sete e, como quase todas as manhãs, cuidará do café e, como todas as manhãs, vai se sentir miseravelmente sozinha. Aí estão a manteiga, o leite, o queijo, as torradas, o pão, o café quente – tudo disposto em forma harmoniosa sobre a toalha xadrez vermelha e branca, combinando com a cortina. No centro da mesa, a fruteira de plástico com frutas de mentira imitando as de verdade: as uvas, a maçã, a pêra, a banana, a laranja. Um dia jogo essa merda no lixo, ela pensa, mastigando um pedaço de pão e olhando as falsas frutas, sabendo por antecipação que nunca fará isso. Ela intui, enquanto bebe o café e olha em volta, que sua pequena cozinha jamais poderá conter sua imensa solidão.

Antes que eles cheguem, trata de terminar seu café e esconde no roupão o seio que tinha pulado para fora. Que não a vejam assim, tão descomposta. Já passa das sete e há muito que fazer. Leite com cereais para Carol, a menorzinha. Júnior, eu já sou grande, mamãe, posso tomar café?, vai se sentar ao lado de Carlos, o pai, o marido, o homem que, às sete e meia, sairá para levar as crianças à escola e, no caminho, vai deixá-la na porta do escritório em que trabalha há mais de dez anos. O dia correrá como sempre e amanhã será outra manhã, apesar de tudo.

 




Tags:, , , ,
              
            
  1.     
                        
              
            
                

Deixe um comentário