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10 de agosto de 2018

A tragédia do sangue infinito

Era noite de lua cheia quando Luísa foi abordada por três homens a um quarteirão de sua casa. Eles a levaram para um beco e a estupraram várias vezes. Um de cada vez, várias, repetidas vezes. No fim, enfiaram uma faca em sua barriga e foram embora. Não levaram nada, nem sua bolsa. Duas horas depois Luísa se levantou, respirou fundo pela boca, tirou com cuidado a lâmina de seu ventre e foi andando até sua casa. Entrou em silêncio, trocou de roupa e serviu o jantar.

Marcelinho, o de oito anos, foi quem primeiro notou a mancha vermelha que aumentava na barriga da mãe. O marido se levantou assustado e levou Luísa ao hospital. Lá não puderam conter a hemorragia. O sangue manchou tudo: o corredor, as paredes, a cama em que a puseram, os instrumentos cirúrgicos, as luvas, as máscaras e o uniforme dos médicos. O hospital inteiro foi tingido de vermelho, um vermelho espesso, que se espalhou pelo bairro e logo pela cidade toda.

Chamaram os bombeiros e eles ordenaram a evacuação imediata do local. A televisão mostrou as poças de sangue espalhadas pelas ruas e avenidas e centros comerciais. Era um vermelho sem fim, que provocou um medo nunca antes sentido pela população. As pessoas cobriram o rosto diante de tanto horror e se trancaram nas casas e apartamentos.

Uma semana depois os helicópteros e viaturas policiais ainda trabalhavam para resgatar os sobreviventes da “tragédia do sangue infinito”, espalhados e amedrontados por toda a cidade. O presidente assinou um tratado com países vizinhos para que acolhessem os cidadãos que deixavam o país só com a roupa do corpo, em pânico. As últimas testemunhas ouvidas disseram e juraram que viram Luísa sozinha, encolhida no teto do hospital, pedindo desculpas por tudo, morta de vergonha.

 




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