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17 de outubro de 2017

A transformação de Perfeito Fortuna

Esta manhã, depois de uma noite de sono intranquilo, Perfeito Fortuna, o carteiro, despertou e viu-se transformado em funcionário público, com assento na Subsecretaria de Desenvolvimento. Durante todo o dia tratou de assimilar sua nova condição, com pouco sucesso. À noite, já em casa, buscou na estante o velho exemplar do Manifesto, ícone literário de sua juventude progressista. Dormiu no sofá com o volume aberto na página dezesseis.

Na manhã seguinte, Perfeito amanheceu jornalista. Passou a ser crítico de literatura de um periódico muito prestigiado, um sucesso de mídia, orgulhoso fantoche capaz de criar, estimular ou destruir todas as opiniões acerca de tudo. Sua jornada também desta vez foi árdua, apenas compensada pelos sete minutos que desfrutou continuando a leitura do livro da noite anterior. Dormiu com a boca aberta na cadeira da cozinha, a cabeça tombada sobre a página vinte e sete.

As manhãs subsequentes o surpreenderam convertido em executivo de banco, calouro de programa de auditório, deputado da base aliada do governo, atleta de elite, empresário de petróleo e escritor de novelas de televisão, entre outras vidas, todas igualmente alheias e distantes de seu eu verdadeiro. Era nas noites, porém, que Perfeito encontrava alguma paz lendo as páginas do Manifesto, esse inquietante texto que o fazia dormir profundamente. Então sonhava, sonhava muito, quase sempre com aqueles tempos felizes que ele conhecia só de ouvir falar, em que um cidadão de bem acordava transformado em inseto, nunca num quadrúpede analfabeto e imbecil.

 




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17 de outubro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos manhã, manifesto, sono, transformação

              
            
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