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29 de setembro de 2016

Transplantes

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Há transplantes de órgãos variados, de pulmão a coração, de medula a córnea. Em todos eles é necessário que alguém morra para que outra vida siga pulsando. Não foi o que aconteceu comigo.

Quando era criança, não conseguia falar, pelo menos como as demais. Emitir o som de uma sílaba era tarefa que demandava muito esforço e, na maioria das vezes, o que saía de minha boca era pouco mais que um ruído incompreensível. Meu pai se preocupava muito comigo e tentava, em vão, fazer com que eu pronunciasse pelo menos o meu próprio nome. Cheguei aos seis anos sem conseguir dizer uma só palavra inteira.

Um dia, era domingo, ele entrou em casa com uma máquina de escrever antiga e a colocou sobre a escrivaninha do meu quarto. Enfiou nela um papel em branco e me chamou. Pegou meu dedo indicador e escrevemos juntos Jeremias, que é o meu nome. Em seguida, cortou com uma tesoura a palavra escrita, dobrou o papelzinho até ficar minúsculo e ordenou Engula! Fiz o que ele pediu e em seguida uma palavra saiu magicamente de minha garganta: Jeremias! Desde esse dia meu pai deixou de pronunciar meu nome.

Vieram muitas palavras mais, todas datilografadas e transformadas em papeizinhos que eu engolia depois que meu pai sussurrava em meu ouvido o som de cada uma. Esse som saía de minha boca límpido e claro como se eu sempre estivesse familiarizado com o ato de falar. Assim que eu as pronunciava, meu pai nunca mais voltava a usá-las. Vieram os substantivos, os adjetivos, os verbos, os artigos, as preposições — todas as palavras escritas em pedacinhos de papel, que eu engolia e sonorizava. Chegou o dia em que meu pai me transplantou todas as palavras do dicionário e, feito isso, emudeceu.

 




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