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16 de maio de 2018

A triste história da tia Beatriz

Já nasceu velha e deixou passar o melhor da existência, por isso seu sorriso foi sempre triste. Parou num tempo, um tempo de guerra que lhe roubou os namorados que nunca teve e os beijos que nunca deu. A guerra acabou e suas ilusões também. Não se dedicou aos sobrinhos e assim livrou sua biografia do clichê mais surrado. Aferrou-se ferozmente aos cigarros de cannabis, que chamava de “meus bezerrinhos”. Tornou-se a “tia Maluca” e falava sozinha. Nunca teve nada de seu, exceto as ruas para andar. Escondeu-se na pegajosa felicidade dos comprimidos para dormir e para acordar, engolidos com leite desnatado, e também na euforia passageira do açúcar refinado, comendo sem parar os caramelos que carregava no bolso embutido da saia. Dizia ter uma fome que lhe incendiava o estômago. Uma noite de abril, quando os doces se tornaram azedos de maneira inexplicável e a solidão adquiriu peso além do que poderia suportar, debruçou-se no parapeito e saltou no vazio. Levantou-se e seguiu morrendo todos os dias, triste como sempre. Desistiu da cannabis e dos doces, não estragassem os dentes que já não tinha nem avivassem as lembranças que não queria guardar mais. Só os comprimidos para dormir e acordar permaneceram até o fim na gavetinha do criado-mudo da tia maluca.

 




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