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28 de julho de 2020

Troca de presentes

Ela foi embora e a ele restaram o corpo enrugado, o coração no osso e as caspas no cabelo. Não se conformou. Para convencê-la a voltar, cortou uma das orelhas e a enviou por correio, numa caixinha de veludo feita especialmente para isso. Juntou uma mensagem manuscrita com alguma poesia: “Se não for junto com você, não quero ouvir mais nada, nem o canto mais belo do mais belo pássaro”. Esperou em vão por uma resposta. Insistiu: cortou uma mão. Mandou outra caixinha, desta vez de música, em que a bailarina dançava ao som de “The way you look tonight”. Escreveu nova mensagem mais ou menos poética com a mão que sobrou: “Posso viver feliz sem uma mão, jamais sem você. Volta, por favor!”. Dois dias depois o correio lhe trouxe a resposta tão aguardada: num vagabundo saquinho plástico de supermercado, os dois olhos dela e a mensagem datilografada sem nenhuma poesia: “Não quero ver você nunca mais na minha vida”.

 




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